Mostrar mensagens com a etiqueta brancura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta brancura. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, julho 14, 2015

"É bom. É bom."

Vamos almoçar aqui. Disse ele com uma voz grave, decidida, como quem decreta. Como quem faz questão. Com aquela voz linda que ele tem.
Gostava de um dia ser tão acolhedora assim. Do alto dos meus 87 anos, receber catraios assim, de braços abertos. Confiar neles, oferecer-lhes o que tenho. O melhor que tenho.
Ele fica a olhar, sorriso aberto, quase pueril. As montanhas a perder de vista, o rio que canta debaixo da ponte, ou cada folhinha de uma hera que se abraça a uma árvore perto. Decifra-os, toca-lhes, examina-os. Conta histórias, faz sugestões.
Vejo-o num limbo entre a genialidade do homem que conheço de sempre e um estado semi-demencial, difícil, incerto e em decadência, também. Olho-o e, nalguns momentos, não consigo deixar de pensar que este homem não vou voltar a ver, porque mesmo que o veja, estará um bocadinho pior e depois outro bocadinho pior e... Mais e mais longe do senhor que conheci.
Olho-o e enche-me o coração que me receba sempre assim. Já comeste? Faz-me sempre ficar. Olho-o e vejo a irmã dele, catraia num corpo antigo, com o mesmo sonho no rosto ao olhar aquela mesma serra, há anos atrás. Olho-o e vejo a irmã dele, hoje sombra, hoje dependência, hoje só rasto de algo já esquecido. Mas também sorriso pueril, dependendo das marés.
Eu vou convosco. Se me quiserem, claro. “Mas tem a certeza? Não fica cansado?” Ele olha-me por cima dos óculos. “Olhe que assim fico preocupada…” Ele segue à minha frente.

Muito boa surpresa. Gostei muito que viesses aqui.

quarta-feira, novembro 19, 2014

Empadão de atum

A minha mãe, o meu pai, o meu irmão e a minha avó estão na cozinha a preparar o jantar, e oiço vozes ao longe enquanto tento que o meu computador funcione. Oiço risota na cozinha e aparece a minha mãe à porta do meu quarto.
- Anda cá que a avó diz que eu não tenho nenhuma menina, tenho quatro filhos e todos rapazes. Anda cá mostrar-te.
Digo-lhe que pergunte outra vez antes de ela me ver.
- Então, mãe, quantos filhos é que eu tenho?
- Não sei, uns cinco.
- Isso está um bocado inflaccionado! E quantos são rapazes?
- Três. (Convicta)
- Então tenho duas meninas?
- Sim, uma ou duas.
O meu irmão pergunta
- E como é que ela se chama?
- (voz sumida) ...não sei...
Eu apareço com ar de brincadeira e as mãos na cintura à frente dela, como se fosse ralhar. Ela, corcunda, branquinha, levanta os olhos devagar. Como se pedisse desculpa diz rapidamente
- Ana Margarida. Anda cá...
Puxa-me para si e encosta a cabeça no meu peito. Fico toda torta e faço festinhas nas costas. E ela
- E eu gosto tanto de ti...