sábado, julho 04, 2009

Ninguém pode.

Curiosos, os caminhos humanos.
Bichos estranhos. Protegem-se de sismos, lutam contra cancros, preparam-se para furacões, cheiram tempestades, sobrevivem a acidentes, escapam, continuam, esperam.
Mas da culpa? Salve-se quem puder!

sábado, junho 27, 2009

Vais ver!...

É possível que viva em mim alguém que nunca vi? Não, mas eu vi. Será possível que viva em mim alguém que nunca conheci? Não, claro que não, se não conheci, não. Mas eu conheço, e vou conhecendo, porque vive em mim e eu conheço.
Sinto que é, que foi, e que é sempre.
A vela é o tempo que arde. O tempo é a vela que passa.
Às vezes apetece-me ir até ao cemitério dizer olá a um resto de corpo morto...dizer Sou a Ana e já tive oito anos, como tu também já tiveste...! Vou andando agora nos meus dezasseis e não fazes ideia das coisas que tenho para discutir contigo!
Mas faz. Porque está e as minhas coisas são um livro aberto para quem está. Se não estivesse, eu não sentia que sim.
"Um dia a minha mãe também vai para ao pé de ti e então tu vais ser-me muito útil e voltar a falar-lhe daquelas coisas só tuas...e eu vou chorar de felicidade quando perceber que voltaram a rir-se à gargalhada...a tal gargalhada de cabeça para trás... Vais ver!"

terça-feira, junho 23, 2009

Eu posso tudo.

Vai haver sempre isto. Isto não, mas outra coisa qualquer. E eu vou ser sempre um copo que cai e que parte. Sempre um copo, sempre eu, sempre um estardalhaço enorme - para mim, claro - que antes de chegar aqui caiu de 50 prateleiras muito muito muito altas. Porque o muito é sempre relativo, tal como Deus é minúsculo.
É por isso que a Mariana ganha sempre - sempre é sempre - e a Sara é e sempre será - sempre é sempre - a minha Tangerina. Porque eu sou um copo que cai e que parte, independentemente de tudo o resto, menos de tudo - que é o mesmo dizer que nada. E é assim que é independentemente, i. é, de modo independente. Porque eu sou um copo que cai e que parte e que se não caisse nem partisse não estaríamos todos aqui a fazer nada. E se não fosse independentemente nesta dependência total e absoluta que expliquei há uns momentos atrás, também não valia a pena estar para aqui a escrever.
Pum. Caiu. Haha.

segunda-feira, junho 15, 2009

Diz.

Diz que o escuro volta.
Que há um lugar para crescer e um tempo para ser racional. Que é bom ter medo e que a noite existe sempre, mesmo quando nós deixarmos de existir.
Diz que é, se nós quisermos. Diz que sim.

sábado, junho 13, 2009

eu sou um copo.

Poisou o copo sem o partir.
(Ainda tinha água, mas era o mesmo que não tivesse, porque de qualquer das formas não foi bebida.) Devagarinho, deu um beijo à mãe e, como se tivesse voltado ao estúdio de dança, dirigiu-se ao quarto, depois à cama, sem que o mínimo ruído tivesse oportunidade de se estrear.
Deitou-se. Sonhou um sonho acordado: que estava na praia, naquela mesma noite, e que afinal não existia dor no seu mundo. O seu mundinho ridículo onde podia não haver dor, se se sonhasse dolorosamente muito, mas sem se notar.
Levantou-se e pegou nas bandas de cera. Olhou pela janela sem que a janela desse por isso. Uma noite, a primeira, em que a depilação não doeu nem um bocadinho.

sexta-feira, junho 12, 2009

Apesar de cocó, eu amo-te.

Fica uma ode.
Uma ode aos amigos. À confiança. Àquela cumplicidade que nos embrenha uns nos outros. Àquele hábito tão nosso e tão bom de irmos conhecendo. Às coisas que acontecem: as boas e as más, que acabam sempre por fazer de nós quem vamos sendo.
Um hino a todas as pessoas que foram, nem que por um minúsculo momento, e mesmo que nunca o tenham sabido, o mundo para alguém.
Na prática, faço então uma ode às pessoas; ao ser humano em si, capaz de tanto. Capacitado para ir, ver, cantar, pensar, teorizar, rir, lutar, vencer, perder, acreditar, sobreviver...capacitado para ser plenamente e para amar aos bocadinhos.
E hoje, especialmente hoje, àqueles que perseguem os seus sonhos como podem, com quanto podem, e são dignos de esquilhões por isso.
Ao Miguel, ao Vasco, ao Hugo e ao Válter.

quarta-feira, junho 03, 2009

Para mim todos os dias são derrotas II

Porque senão eu ganhava.
Porque senão já não havia aqui nada para fazer, porque estava ganho.
Quero ir. Quero querer! Quero continuar a perder e a não ter para poder continuar a ir ganhando.
Quero, quero, quero, e quero nunca deixar de querer. Porque quando eu não quiser mais, já não há em mim sonhos, já não há em mim saltos, nem sóis, nem bichos, nem tangerinas, nem chocolates, nem foguetes, nem flores, nem precipícios, nem teoria alguma, nem qualquer réstia de vida.
Cada dia é uma chapada. Cada dia é a oportunidade de a curar. De a superar. E de confiar que, quando chegarem outras, havemos de chegar para elas todas.
Não há aqui nada que seja meu. Perdi tudo. E nada me dá mais força, nem mais poder, nem mais confiança. Não há aqui absolutamente nada que seja meu.

quinta-feira, maio 28, 2009

sóis ao longe

Sonho para descobrir a verdade.
Aprendi com o senhor Roda: à noite é que tudo começa verdadeiramente. Porque a realidade desaparece com a luz, e a verdade vem vestida de luar (e com queimaduras solares: a verdade não perdoa nem é perdoada...). A escuridão é que é iluminada! Ela é a luz de sóis ao longe...e deixa tudo ver num só espaço e a um só tempo!...
Com o sono, começo a pensar com o corpo, mas sem saber. Pensadas com o corpo, as coisas ficam mais claras, e isso dá-me poder. Ao meu consciente, ao meu inconsciente e ao meu subconsiente...mas sou sempre eu! Só aí me apercebo...tudo é um concurso de circunstâncias e oportunidades...como uma conjuntura pintada à mão...
E tornou-se necessário olhar as coisas só com olhos de peluche para não magoar o sono.
O que dá algum trabalho, mas faz-se bem.

domingo, maio 24, 2009

atchim.

Tenho medo.
E tu tens razão. Tens sempre razão.
Eu sou fraca. Teorizo, dou a volta, caio, levanto-me. Finjo que não aconteceu nada. E tu ganhaste sempre, mesmo quando eu não vi. Sou...pequena. Como é que ainda aí estás?...
A esperança cresce, débil, real, por entre a relva, no caminho, à vista, como um fungo impertinente. Cresce espontaneamente, quando e onde não deve, daquilo, do nada, do resto, do que não conta, do caos, do fundo, para vir assomar à minha derrota mais uns pontos negativos. E deslumbra-me. (Fraca!)

Às vezes preferia que já te tivesses ido embora, sempre me sentiria inocente. Assim sendo sinto-me só idiota. E deficiente. Mas como é que tu ainda aí estás?...

segunda-feira, maio 18, 2009

Viver é não conseguir.

Foi o pior. Hospital, dores, consaço, trabalhos, testes, dentista, sono, macacos no sótão, datas, prazos, desafinações, ai, estou, morta.
Foi horrível. E talvez por isso tenhamos chegado onde chegámos.
Ganhámos porque aquilo que ali fizemos era verdade.
Parabéns, bichinho, pela nossa vitória no V Festival Palotino.
Porque sem ti, nada disto teria feito sentido absolutamente nenhum. Porque és tu que estás, sempre, a dois lances e escadas de distância. E mesmo quando não há escadas, nem lances, também não há distância e estás sempre comigo. E mais não preciso de dizer, nunca precisei...
És eu. És o meu bichinho. E nós não somos nada de jeito.

sexta-feira, maio 15, 2009

Piri Fonseca Ferreira

A Piri morreu.
Morreu a 26 de Fevereiro de 2009, às 23 horas, 5 minutos e 20 segundos.
Morreu porque o pai e a mãe dela - que eram, como sempre tinham sido, os melhores pais do mundo - se destituíram mutuamente de pais. E sem pai nem mãe a Piri morreu.
Mas não foi bem por isso que ela morreu. E nenhum deles sabe disso. Eles não sabem que a culpa não é deles, e a Piri não sabe que eles não sabem que a culpa não é deles. A Piri sabe, sempre soube, que a culpa era dela. Se tivesse sido uma boa filha, seguido à risca a educação que a mãe e o pai lhe haviam dado, a mãe e o pai nunca se tinham sequer lembrado de andar à bulha. E hoje seriam aquela eterna família feliz.
A Piri morreu e a culpa foi dela.
Morreu a 26 de Fevereiro de 2009, às 23 horas, 5 minutos e 20 segundos, e ainda hoje isso lhe dói.

sábado, maio 09, 2009

Pensar incomoda como andar à chuva...

É a felicidade de uma criança na feira popular pela primeira vez. É uma festa, é um instinto, um arrepio! É uma alegria, um doce que não apetece engolir, um suspiro de satisfação. É um prazer, um deleite, um mimo para a alma. É do mais humano que pode haver, porque sensorial e quase quase quase! palpável. É viver!, é sentir, é respirar! É cuspir esquilhões de bocadinhos de salsicha no meio de uma gargalhada. É sentir tudo devagarinho e com as pontas dos dedos, mas só depois de muito rápido e de se ter melgulhado completamente. É chorar, porque é emocionar-se, mais ou menos racionalmente.
Sou eu. E, por isso, um bocadinho de ti. (Como é que tu não percebes??!)
.
O António um dia escreveu
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.
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Fique-se com esta.

sábado, maio 02, 2009

RTX 78/24

É uma peça estranha. É o apelo de Rómulo de Carvalho aos planos de paz verdadeiros. Sendo que a verdade é o que enobrece por oposição ao erro que é a discordância entre o pensamento e o objecto do pensamento. É o sonho de Antonio Gedeão personificado no menino António e na menina Georgina à procura da sociedade regida pelo amor em que os homens falam todos a mesma língua.
Mais que uma crítica social, é a apresentação da solução e uma proposta de novo início.
O Grupo de Teatro dos Assassinos da Arte de Representar está na Malaposta na quarta-feira que vem e os bilhetes reservam-se pelo telefone e são grátis. E o palco é nosso.

O sol é teu.

Faltas aqui. Mas como é bom sentir a tua falta!
Só sinto a tua falta aqui porque estás no meio de mim e eu sei que estás. Se não estivesses, nunca poderia sentir a tua falta e ser feliz com isso.

quinta-feira, abril 23, 2009

Hino à minha liberdade

Este foi o dia em que a máquina do hospital sorriu para mim.
Um hino.
À liberdade de olhar abertamente, como Sophia,
e de ver e conhecer por dentro, como Ana.
De subverter a minha própria sociedade organizada, como Gedeão,
e de ver uma infinidade de pontos, como Deus.
Um hino à liberdade de reconstruir sistematicamente
o meu próprio equilíbrio.

domingo, abril 19, 2009

Hoje está sol.

Hoje está sol. O céu é de um azul muito claro, e as monstruosas sombras dos prédios da minha rua descansam, deitadas no meio da estrada.
Mas ontem estava cinzento, e eu podia ver o fim da estrada em que conduzias a tentar agarrar a cor do céu para a poder guardar só para ele, podia esconder-me das casas e dos cafés atrás do nevoeiro, e brincar com a minha mente às escondidas até me perder de vista, sem que mais ninguém soubesse, ou quisesse saber, ou tivesse hipótese de querer saber.
Hoje está sol. (O sol é teu!) Eu não tenho saudades nenhumas do cinzento que me inunda e me faz respirar fundo e sentir que gosto de dias cinzentos, porque isso seria não poder ter um dia cinzento, e eu tenho. Eu tenho.
Tal como tenho tubos de tinta-da-china e muitas razões para pintar.
Hoje está sol, e é todo muito teu.

sábado, abril 18, 2009

Solidaried'Art

Hoje já começou. Começou sorrateiramente e até devagarinho, no meio da noite, no meio do frio, como quem não quer a coisa...vá, como se fosse natural ser-se um dia tão importante.
Pusemos neste dia as nossas maiores expectativas. O nosso trabalho, as nossas mãos, as nossas ideias, os nossos tinteiros, a nossa gasolina, a nossa imagem, o nosso tempo, tanto de nós.
Aqui está um apelo à bondade. Aqui está o sonho colectivo de uma vida melhor. Aqui está todo o nosso crédito na Humanidade. Aqui está um grupo, simples, jovem, que se julgava morto. Aqui estão as pessoas que ousam dar as mãos a outras mãos que mais precisam. Aqui estão os jovens que acreditam que é assim que se anda: ao colo de Deus pelo chão do mundo.
Sinto-me útil. Mais que isso: sinto-me viva.

terça-feira, abril 14, 2009

Fragilidade

Esse baxel, nas praias derrotado,

Foi nas ondas Narciso presumido;

Esse farol, nos céus, escurecido,

Foi do monte libré, gala do prado.

-

Esse nácar, em cinzas desatado,

Foi vistoso pavão de Abril florido;

Esse Estio em Vesúvios encendido

Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

-

Se a nao, o Sol, a rosa, a Primavera,

Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel

Sentem nos auges de um alento vago,

-

Olha, cego mortal, e considera

Que és rosa, Primavera, Sol, baxel,

Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos

-

Gostei tanto do poema...é tudo verdade! Sinto-o hoje na minha pele.

sexta-feira, abril 10, 2009

Fica comigo.

É aqui que tu aprendes a sofrer.
Só sofre bem quem ama bem, e só ama bem quem está comigo.
Também tu me abandonas. Também tu adormeces. E Eu agonizo no meio dos pecados de todo o mundo.
Tu preferes ir estar com os teus amigos porque aqui não há palavras de conforto, nem é divertido, nem os teus problemas têm qualquer importância. Aqui há dor e solidão, e tu enfraqueces. Mas não te lembras de que os meus amigos me negaram e me traíram. Não te lembras do quanto preciso de ti, que tu fiques, que tu ores, que tu vigies, que tu esperes, tu.
Pedes, pedes, pedes... Chegou a minha hora de pedir. Abandona-te a ti mesmo, então. Abandona todos os teus projectos e apaixona-te pelo futuro que sonhei para ti, só para ti. Presta atenção. Tudo suporta. Não cedas às tentações. Instruir-te-ei e porei em ti o poder de incendiar o mundo com o amor do meu Pai. Não é fácil. Ninguém disse que era fácil. Não vieste aqui espreguiçar-te! Lembra-te de mim. É assim que aprendes a sofrer bem.
Fica comigo.

sexta-feira, abril 03, 2009

O vento lá fora

Círculos. Tudo são círculos.
Tal como uma infinidade de p.o.n.t.o.s.
Pontos que são sombras
E sombras de sombras.
E a vida é bela, e x a c t a m e n t e assim.
E dói.
Por todos os pontos
onde era para doer
e ainda nalguns onde
não era suposto.
Mesmo assim ela é bela.
Não era bela
nem ela
se não fosse assim.
A cena é ir.
O vento está lá fora
(O vento é para os loucos.)
E há-de sempre estar
Serve para ser vivido
Serve para ser sentido
E depois para se fugir.
É por aqui?
Há-de ser, mais ou menos...
Porra, pah,
por quem sois...
Teremos sempre o mesmo sorriso
Novo na cara
De quem risca e arrisca.
De quem se afia e desafia
Para ir à luta com vontade.
O dia só acaba deste lado!
Somos loucos, não somos?
Minha Marta, se somos.