Lá estava, escrito à mão, em letras gordas e...hum...de principiante. Hoje ainda é verdade. Como o sol.
Gosto da palavra e da letra
Gosto de quem a escreve
Qualquer letra ou palavra é preta
Num fundo branco de neve
Um blog acerca da concordância entre o pensamento e o objecto do pensamento. Por meio de tentativas, erros e silogismos parvos, usando de alguma dialéctica, muita metafísica e muito pouco distanciamento crítico. O eu não existe. Mas os pijamas sim.
Lá estava, escrito à mão, em letras gordas e...hum...de principiante. Hoje ainda é verdade. Como o sol.
Gosto da palavra e da letra
Gosto de quem a escreve
Qualquer letra ou palavra é preta
Num fundo branco de neve
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol, nos céus, escurecido,
Foi do monte libré, gala do prado.
- Esse nácar, em cinzas desatado,
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em Vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.
- Se a nao, o Sol, a rosa, a Primavera,
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,
- Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol, baxel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
Francisco de Vasconcelos
- Gostei tanto do poema...é tudo verdade! Sinto-o hoje na minha pele.
- Amanhã vai doer muito. Mas o mundo dói mais que um dreno.
E então senti alguém pôr o dedo na ponta do meu nariz, antes de o tentar achatar como se isso resolvesse o meu nariz empinado. E então soube.
Há no mundo Graça, verdadeira Graça. Afinal, o melhor que aprendi no hospital foi a respirar fundo...e recomeçar.
E eu espero.
Primeiro pelo dia, que se adivinha no céu madrugador que se espraia acolá, depois pelo pequeno-almoço - sempre carcaça com doce e chá - trazido pela enfermeira loira que nunca disse o nome, depois pela mãe, que a todo o minuto "deve estar a chegar", depois pelo resto do dia, sempre igual, e depois a noite já chegou sem passar cavaco às tropas e não é preciso esperar por ela, só pelo sono que nunca chegou, nunca.
Primeiro a Elsa, com o seu analgésico sorriso de criança, por volta das seis. Depois o Délio, às 7h, e com um problema engraçadíssimo com o sol arrebatador que teima em entrar. O Hélder há-de vir todas as tardes. A Daniela, para responder a tudo e informar de tudo. O Dr. Pedro vem antes ou depois do Hélder, ou antes e depois do Hélder, ou sempre que lhe apetecer, com o sorriso - tão raro! - mais bonito deste hospital. E o Dr. Martelo, a ética e a dignidade, a falar baixinho para só eu ouvir, enquanto abre ou espreita ou desinfecta, ou as outras coisas todas que eu nunca quis ver.
Por todos eles eu espero. Por eles e por muitos outros não precisam que os nomeie aqui. Pessoas. Que esperam pela minha reacção, pela minha força, pela minha vontade de continuar, ou pela ausência da reacção, da força e da vontade. Mas esperam. Sempre com um sorriso.
"Sim, Ana, espera só um bocadinho."
Eu espero.
O dia arfa, lá fora. Com tudo o que era meu.
Eu espero.
E eu vim para casa com quatro tranças no alto da cabeça.
E é assim que eu abraço uma dor de cabeça ou um escarafunchar por Kant, Nietzsche, Camus, Sartre e outros que tais.
Isso é óbvio.
Mas só hoje é que percebi que não vai, nunca, de facto.
Não há um depois, nem sempre há. E eu não confio em mim para dizer nas férias trata-se disto ou daquilo. Não funciona.
Mas não vai parar. Independentemente de tudo. Não há cá cada caso é um caso nem vamos pensar no assunto. Não vai.
E há-de doer, sempre. Porque só assim é que dá.
E isto...foi isto que...vai fazer a diferença.
É forçoso admitir que há muita bosta por tudo quanto é sítio. As regras não são justas. E enquanto estivermos vivos não poderemos ser perfeitos, nem completos.
Mas a vida é um dom indiscutível, o maior dom de todos. É por isso que temos, por força, de perder os que amamos. É a única maneira de entender realmente a importância que têm. É aqui que a vida ganha toda a sua importância: na morte. É por isto que tens de celebrar. Porque estás aqui, porque és uma pessoa, porque amas, porque és mais importante do que podemos discernir.Parabéns, minha querida!
PS: Sabes, foi o primeiro ano em que faltei ao teu aniversário....but yet, acho que não faltei... :D
imagem do google
Receita: ......................................................................... Escola nova; horário-manta-de-retalhos; marcadores permanentes; farinha do super mais próximo; água (daquelas de 1.5l que custam 13 cêntimos, de preferência); manuais escolares que se parecem com os dicionários Petit-Robert, e que comprados na vulgar livraria pagariam um carro. ...........................................................................................
...Será preciso dizer mais alguma coisa?
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