terça-feira, fevereiro 16, 2010

Casa.

Ter uma casa para onde voltar. Uma casa que não passa, não se fecha, não arrefece.
Este é aquele ponto onde há duas ou três cadeias montanhosas de histórias, episódios, alegrias para contar de um fôlego só. Mas chegar, chega, e quem conhece quem chega já teve quanto bastasse. Há qualquer coisa que é nova e de sempre ao mesmo tempo, e que nos aquece o coração. Casa.
É o que fica. É a relva sobre o abismo. É onde todos os passos têm muitos sentidos. A casa não morre, não desfalece. Entristece-se, respira, dorme, mas não desiste nunca. Porque sabe sempre, porque sabe que só assim faz sentido, porque conhece aquele calor que irrompe quando alguém chega.
Uma casa que não passa, não se fecha, não arrefece. Voltar.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Post-it

Estou gelada. O meu quarto está gelado.
Procuro uma coisa com carácter de urgência. Doem-me as mãos, e mexer os dedos, e pegar nas coisas. Os meus dedos parecem queimados de tão frios.
Tanto frio.
We don't own time, ressoou na minha cabeça. Sim, eu sei, mas queria mesmo encontrar...
Fui. Gelada. No meu mp4, com metade da cara enfiada na gola do casaco.
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Preso algures, um post-it amarelo.
Preciso de ti.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Tempo

É tudo um puzzle mental.
Não uma tabela de prioridades, mas de circunstâncias. Como Ortega, e depois João Manuel, eu e a minha circunstância descrevemos a minha acção, as minhas prioridades, o meu tempo e, consequentemente, o meu sono também. Depende de como o usamos [o tempo de que dispomos], ou de como dele prescindimos., escreveu mac.
Fiz uma tabela bué gira no Excel. A minha semana a direito, com um estudo azul, outro a verde e outro a laranja, reuniões castanhas e tarefas domésticas de um azul mais levezinho. Tempo livre amarelo e escola cinzenta. E ela, a tabela, chora, grita, da parede branca do quarto.
Que é importante o brio, ninguém duvida. Que é essencial respirar, ninguém questiona. Equilíbrio é para os senhores que andam e saltam em cima de cordas. Este é o meu puzzle e ele mostra que a minha ciscunstância se eu não couber não há.
Descobri a enfermidade da minha tabela do Excel. O que é urgente é, e alguém faz. Eu prefiro respirar.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Eu posso tudo.

O grande Hugo dizia que não é nosso, só emprestado. E o Vasquinho dizia Pois e sorria um sorriso graaande e eu ficava a cogitar naquilo até cair para o lado. Caía para o lado porque o sorriso do Vasquinho era mesmo muito grande, tinha covinhas e tudo.
As coisas embrulham-me às cambalhotas, mas eu acho que é tudo uma conspiração porque elas querem que eu pense que sou eu que me embrulho nelas porque não soa muito bem dizer que uma coisa empurrou uma menina que já devia ter juízo.
Não é nosso, tinha dito o grande Hugo com aquele ar tão importante que ele tem.
Quão grande é isto?
Toda a liberdade, toda a responsabilidade, toda a pequenez, toda a alegria...tudo nosso! Saber que um dia vamos poder chegar e dizer Toma com um sorriso grande como os do Vasquinho. Porque não é nosso! Tudo depende do sumo que fazemos com as tintas que nos deram. E este sumo depende obrigatoriamente de saltos, de ares importantes e de pois.
Olhaa, trouxe isto, e isto, e este assim e ... Bem...hum... Toma.
Tudo posso. Assim.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Tristesse.

A tristeza é permitida. Tem de ser.
Tudo há-de ser permitido enquanto circular dentro das fronteiras daquilo que faz sentido no ser. Como a medicina, a educação, a verdade, o amor e a parvoíce e o cotão. O espaço. Um momento. - e depois o resto.
Porque aqui, a reacção não é imperativa. A tristeza não é algo a que se reaja, por ser já uma reacção que paraliza, de alguma maneira, outras reacções.
Mas o resto. A tristeza vem de dentro, e nós vivemos para fora. Permito-me, sim. Há alguém que abraça. Fale ou não, conheça ou não, tudo o que pode fazer é isso. E o resto virá, incólume. Ou nem por isso.
De uma maneira ou de outra, são as linhas com que se cose.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

2010

I have this new pijama. From my mom.
It's stripped and black and white and...grey.
There's always this feeling something has to change. Cause one day day tea's cool and we don't even notice anymore. I don' want to have cool tea every morning, but he's there!, and I always figure out a way of not saying a word, so I always keep it, and always know tomorrow he'll be there again. Cooler.
But there's always this feeling we can do something. Actually do something. To change. We know we can do something, almost anything, and many of those things could change it all, but... It's morning. We get to the kitchen. And there he is. Threatning. Ours. Maybe we could...just... Hmpf, I got to run, bye! Like Pablo Neruda's postman's coffee, "Tomo-o sempre amargo".
Have I told you I have this new pijama?
Yeah, my mom bought it for me.
Maybe it wouldn't hurt if I put in on, someday, don't you think?
I thing I saw something red on it. Weird, hug?

domingo, dezembro 20, 2009

"Velho, velho, velho"...

Olho-os. Eu cresço, eles envelhecem. Os anos cobrem-se com a pele como um cobertor, e eu vou contando as dobras.

Daqui é como se não mudassem. E por mim era sempre assim. O meu pai embaraçado sem dizer, nunca dizer o que sente. Em todos os Lethal Weapon, Roger Murtaugh (Danny Glover) dizia "I'm too old for this shit". E eles vão estando velhos o suficiente para as coisas.
Vergílio dizia que "ser velhor é ir sendo pouco", mas eles não são esses velhos. São aqueles que já fizeram, já sabem, têm, e agora olham. Observam. Contemplam. Uns, com "iogurtes com pedaços" entre os dedos que ainda estão longe da reforma. Outros, que silenciam o espaço como que por magia quando falam.

Diz-se que vai nascer um Menino agora por esta altura. Aqui nasce assim, e eu não conheço outro. No tempo que passa como a vela que arde. É aquele fogo que nos dá sentido... Queria ter uma que não morresse nunca!

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Toma.

Olhava com o olhar de quem recebe o que é dado, de quem não sabe, de quem crê não ter como responder. Era quem não cabia em si. Era quem não sabia o que era para estar naquele lugar.
Disse só "Toma. Guarda.". É meu, e por isso é teu, quis dizer, mas falou só por olhar. Não queria uma festa, não queria um obrigado, porque não faria sentido. Dar é dar. E não é a qualquer um, é àquele ser humano específico e em especial. Não queria um abraço, um olhar, sequer. Porque aquele dar chegava, bastava-se, para dizer tudo que fosse preciso. Estás aqui e eu quero que tomes, que segures, que guardes, que leves, que sejas. Sou eu e és tu e eu saio de mim para ti. Sou tu, aqui. E a partir daqui, tu és o que tu entenderes.
Dar é dar. É ser um outro. Não somos maiores, mas há algo de maior em nós. Não transbordamos nunca de nós, mas de algo diferente. Algo maior. Algo que brota, que grita, que precisa de um Outro. Dá-se, porque só se pode dar. E dar assim...é ser. É amar. É chegar.
Não dói. Antes nos queima aquela sensação de que fizemos tanto esforçando-nos tão pouco. E olhamos nos olhos aqueles olhos. Tão fora de nós, tão distantes em tantos sentidos, mas tão perto, e tão iguais aos nossos... Está aqui. Toma!

quinta-feira, novembro 26, 2009

morar

Queria contar-te uma coisa, sabes?... É. Mas para isso preciso de remontar às ervilhas que comi aqui no Verão e que, para desgosto póstumo de Exupéry, me deixaram estragada. Cresci então uma ervilha na barriga. Trago-a comigo, e ela cresce. É uma ervilha estragada – é aquela que me avariou.

Hoje sento-me num canto, mesmo debaixo da estante dos Ésses (Rodrigues dos Santos e Saramago espreguiçavam-se escandalosamente ao longo das prateleiras mais baixas) e colho um Silva. Uma Gota de Chuva, dizia ele. Uma gota de chuva. E só bastou.

No caminho para a continuação da minha gestação, esbarrei com O’Neil, que estava sentado mesmo a seguir à esquina da ala do Camões lírico. Falou-me da vertigem que nós éramos, a vertigem entre o real e o sonho, disse ele, com aquele olhar de quem semeia mas não olha para onde. E já o Vergílio tentou, quando era vizinho, morava no 5º andar, lembro-me tão bem... Falava de relógios e de velhos e coisas do género. Tinha de repetir sempre o que ele dizia para poder perceber ao menos o encadeamento das palavras, até que emudeceu.

Mas só aquela estava estragada. Só aquela me estragou. Só aquela não traguei, tendo deixado de poder tragar. Era intratável. O infame!

É isso. Desculpa. Estou estragada. Um homem morto e desgostoso tem a culpa. Ele é que não arrumou antes de partir, e eu tropecei naquele quarto... Eu farei, a sério que sim. Fazer sempre a cama antes de ir.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Sorvo.

Hoje há nova Jerusalém.
Lisboa. Lisboa. Além-mar, Cristo Rei. Um sorvo só.
Senta-te. Não chores. Visita-a. Esta de casas e casinhas, que tem o Martim Moniz e o Castelo de São Jorge, e o Tejo e os pássaros e os eléctricos e a ponte. Chega. O princípio é vir, é ir, é chegar.
Porque amar é estar sempre chegando.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Rápido.

Caminhava mais rápido que sempre.
Já não sabia de cor tudo o que precisava de saber para chegar mais rápido, porque já tinha tudo tão entranhado desde o primeiro dia de sol que agora não precisava de pensar no caminho e podia usar esse tempo para pensar no resto, no tudo, no que estivesse a seguir, no resto da vida.
E não havia tempo a perder, porque não haveria nada a ganhar em perder esse tempo.
Nada, por certo. Por certo...
E ia, e vinha, e ia, e vinha. E tudo era assim, e tudo funcionava. Um ir e um vir. Um descer e um subir. Um chamar e um fugir. O poder de se poder desembrulhar o papel de parede sem saber propositadamente se não se está a embrulhar-se nele. E embrulhar e desembrulhar e embrulhar e desembrulhar e embrulhar e desembrulhar e dissecar e descobrir a ponta, e depois o resto, do acre do piquenique.
Quem anda só chega a horas. Mas só se traz a si nas mãos.

sexta-feira, novembro 13, 2009

7:31

Só mais um bocadinho, va lá. É só mais um bocadinho.
Quero ficar aqui e nunca mais sair. São agora 7:30, 7:30, 7:30 da manhã, e é necessário, estritamente necessário abandonar o quentinho, o quentinho aqui...este, isto. Isto, isto, isto, isto. É este isto que é bom, e daqui a nada já se foi. Porque saí e está frio lá fora. Porque saí e vai deixar de ser quentinho, aqui. Meu. Meu. Muito meu.
Depois? Depois beberemos o que ficou. O chá arrefecido e aquecido. Que ainda é chá, aquele chá, mas já não sabe ao mesmo.
Não! Aqui! Isto, milhões de vezes isto! Milhões de vezes a infantilidade, a inutilidade de querer agarrar um segundo para sempre... Tenho medo do escuro, do escuro de me esquecer do sabor deste quentinho! Do escuro, aquele escuro, de me assombrar a memória de que um dia arrefeceu. Só mais um bocadinho...
Sim...?
.
7:31.
[escuro]

sábado, novembro 07, 2009

Puxa!

Não é ser exigente. É não ser contraproducente.
É essencial que as coisas funcionem. As flores que fazemos dão fruto e semente. E as sementes germinam e o ciclo recomeça. Sem nós! E só assim - já sem nós - funcionam em facto e verdade.
Falta. Ainda há muita coisa urgente por fazer, e todos sabemos isso. O ponto não está aí. É que, para além do que é urgente, ainda há coisas importantes a fazer. O que é urgente alguém fará. E isto, isto é importante. Verdadeiramente.
Não se trata de exigir, mas de ser.

quarta-feira, novembro 04, 2009

BANG BANG YOU'RE DEAD

(Josh) O que é isto? Quem está aí?

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(Michael) Então fazes da tua cara uma máscara.

(Katie) Uma máscara que te esconde a cara.

(Mattie) Uma cara que esconde a dor.

(Jessie) Uma dor que te come o coração.

(Emily) Um coração que ninguém conhece.

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Texto William Mastrosimone
Tradução Sofia Torres de Carvalho

segunda-feira, novembro 02, 2009

Isso e couves.

Era cortar-lhes as cabeças, espetá-las em paus, plantá-los ao sol até secar. Ou então deixarmos de ser idiotas, que também serve e é ligeiramente mais económico.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Chove.

Chove como se nevasse.
É um esforço que se faz.
Às vezes, para respirar.
Mas é um esforço.
E isso conta só por si,
e viver assim deixa-me feliz.
Hoje chove como se nevasse. E nem sempre quando chove chove como se nevasse. Não é sempre. E nem sempre quando chove como se nevasse eu dou por isso, por isso são ainda menos as vezes em que para mim chove como se nevasse.
É um esforço. É sempre um esforço. (É por ser um esforço que há reforços...!) É por haver esforço que há certezas. É por haver esforço que andamos em cima de dois pés. É por haver esforço que não há de que ter medo.
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E...frio. Há quem seja lindo e tenha frio.
Porra, ninguém me tira isto.
Vou chover. Como se nevasse.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Non abbiate paura!

Em português de Taizé, nada há a temer...

E isto é fácil quando é fácil. Até por definição.

O resto? O resto é quando cresces, em facto.

sábado, outubro 10, 2009

linhas

Ela tinha uma certeza naqueles passos, como se todos os passos tivessem um sentido. Algo maior expandia naquele peito, e isso transbordava, mas só para quem olha.
Há uma certeza, ao ir, de que está tudo. Onde devia ou não, bem ou não...pouco importa. O que está, está. E o que está, está bem. São estas as linhas com que se cose. E é isso que aquele peito e aqueles passos tinham de especial. Não estavam cheios de si, nem de ninguém, mas de algo maior. Algo maior.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Lalala, j'suis un escargot!

Avant tout, je suis celle qui demeure.
Je suis un escargot qui se demeure, mais qui passe. Qui passe au côté ou devant les choses, mais qui ne passe pas sans les connaître, sans les connaître dedans et en vérité. Et c'est ça car je me demeure: n'oubliez pas ma condition d'escargot!
Pourquoi est-ce que je me demeure, vous vous questionez. Comment ne pas me demeurer, je vous demande... Avez-vous vu les gouttes de la pluie d'hier posés dans le frais gazon du jardin? Voyez-les, s'il vous plaît! Dites-moi, dites-moi si elles sont ou pas la demeure d'or que je ne peux pas voir, seulement sentir...
Je me demeure et je demeure. Et je passerai.

quarta-feira, setembro 30, 2009

O início.

Não é difícil despedires-te. É chegares ali, àquela barreira, seja onde for que a criares, e dizeres Adeus. É o bastante.
Aí colocas tudo o que sentes. Não por te estares a despedir, mas por ser assim que a vida se vive. Não será necessário mudares o modo de viver por uns minutos - aqueles, a despedida - ninguém quer que sejas outro quando te despedes.
Porque a despedida é unicamente uma coisa que dizes. Di-lo, sem medo de dizer. As palavras não te vão comer. Não evitará a partida o facto de adiares as palavras. Diz tudo, diz cedo, e depois cala-te. É relativamente fácil. E bastará, ainda que não pareça.
Alguém dizia que quando nos aproximamos do final, voltamos sempre ao início. O início. Todos os inícios são uma história, e quase todos são mais que uma história. Contamo-la ao nosso ninguém como a uma criança - uma história mais ou menos apetitosa: consoante o tamanho do sorriso que trouxer.
Bem vistas as coisas, porque não nos calamos?