quinta-feira, abril 07, 2011

Colo do Mundo

"A solidão não tem cura. Mas se tem um contrário ou um oposto, ele é exactamente esta casa, esta segurança, este lugar nosso, e cabe inteirinho dentro de um abraço."

segunda-feira, março 21, 2011

Hoje, epiteto-te de outra coisa.

Uma cicatriz na testa atesta aquilo que já foi um síndrome da sela turca (harmonioso epíteto para se dar a um tumor na hipófise...).

Deus, na minha casa.

A possibilidade de cheirar pela primeira vez? De saborear pela primeira vez? De pela primeira vez correr, cozinhar, limpar, rebolar na relva? Ir apanhar amoras depois da chuva? O dom de ser e de aceitar e de participar da empresa maior e mais feliz de todas. A faculdade de respirar cada tempo, a faculdade de recomeçar.

Não imaginas como é bom estar aqui., sorriu ela. Como Pedro disse ao Cristo.

Hoje, epiteto-te de outra coisa. Uma outra coisa, maior que nós, que tudo o que conhecemos. Um ponto, um átomo, o mais pequenino de todos. Aquele que é mais verdade que o sol. Que vinha antes do princípio, e que eu guardo no bolso. A sombra da sombra da sombra mais branca e mais redonda de todas. O Mosteiro Invisível que cabe inteiro num adenoma da sela turca.

Deus, na minha casa.

segunda-feira, março 14, 2011

Decantação?

Tic, tac, tic, tac.

Onde ficaste? Que foi que deste? Onde moras? És quem?

Moro porque sei que tem mais sabor. Não o sinto agora, mas... Minto. Sinto-o agora já porque o antecipo, sabendo que me vai saber melhor. Saboreio hoje o saber que amanhã vou sentir-me bem por ter esperado, aqui. Se quiseres, é puramente egoísta, morar. Porque vai ser melhor para MIM.

Vou continuar a esperar. Inteira?

Vou fazer a minha decantação. Decantar-me. Quando acabar, descubro. Espero.

Tic, tac, tic, tac. Olha eu a morar.

quarta-feira, março 09, 2011

Decantação?

E pronto, parece que sou resmungona. Acho que o lado de cá é mais difícil, mas não conseguiria trocá-lo. Não consigo. Não quero. Sei que assim é impossível, e que cada vez vai ser mais. Ter percebido isto não me parece nenhuma conquista, mas parece ter sido difícil. Agora...agora não sei. Estou num sítio que só pode mudar. Num limbo. É como se tivesse tentado fazer um teletransporte, mas a coisa tivesse corrido mal. E então não estou aqui, nem lá. Não estou. Tenho um não-lugar? Resmungo porque faz sentido. Chateia? Resmungassem, tudo havia de ficar resolvido, logo-ali. É assim que as pessoas crescem, creio. Olhando o que está visto, como se fosse a primeira vez. É assim que um não-lugar, como a solidão, se evapora.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Campos.

Diz lá. O que seria eu, se não clareasse? É assim mesmo que se protegem as pessoas: protegendo. Clarear-te é proteger-te, e eu protejo-me, assim, clareando-te.
Dizem que o facto de explicar e perceber e saber não soluciona, mas toda a minha Humanidade diz que sim com a cabeça. O que é que eu podia fazer, quando ainda podia decidir, senão acenar também, e vivê-lo, para este sempre, com tudo o que sou?
É a minha grande liberdade. É eu, isso. E tu sabes!... Chama-me. Ou não me chames. Sabes que nunca te vou dizer o que fazer. Campos. Diz.

domingo, janeiro 23, 2011

"Deus é a cabeça!"

Quando acho que já está, eles vêm dizer o contrário.

Há sempre espaço para mais um, nem ponderamos dizer que não. Ponderando, chegaremos rapidamente à conclusão que não faria sentido. Temos hoje, dia 22 de Janeiro de 2011, dez crianças dentro da sala. Doze, se contarmos connosco. Sentimo-nos já ultrapassadas quando um resolve dizer qualquer coisa como "Deus é a cabeça!".

Hoje chegou mais uma. Pequenina, como todos. Era o primeiro dia, a mãe ficou também. Um dia vai coordenar um grupo de jovens, ser MEC ou Consagrada? Será que vai sair a mio do caminho? Talvez volte mais tarde. Tantos voltam... Ou talvez não volte nunca, segura do que decidiu. Ou talvez ainda sinta um dia qualquer coisa que a carcome por dentro, e resolva investigar.

Para mim, o melhor de ser catequista é seguramente também o pior.

É nas nossas mãos, também, que eles repousam. Eles inteiros. As suas famílias, os seus pares, os seus medos e capacidades; as suas necessidades e as suas realidades; as suas dúvidas, as suas conquistas, os seus desertos e as suas montanhas. E se é uma enorme responsabilidade que provoca um medo pavoroso, é também e sobretudo ainda um mistério assombroso.

Para mim, o pior de ser catequista é seguramente também o melhor.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Exquis

Sim, ainda tenho muitas coisas para dizer. Coisas que já fui. Presunções que tenho. Nuvens que penso. Pessoas que sou. Tudo isso é real, porque eu. É tão real como eu, ou seja, si próprio. Vago? Sempre e nunca, só depende do ponto e vista. Há até muita gente para dar por isso. Ou assim volta e meia alguém diz. Mas às vezes não há ninguém. Ninguém. Um ovo é só um ovo, e a melancolia passa incólume. É por isso que a humanidade só pode aceitar o objectivismo.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Anjos e Magos

É incrível. Era preciso estarem lá, para que vos explicasse.

Há sempre uma parte do texto que ainda não tínhamos ouvido. Pelo menos, não assim. Há sempre algures no texto qualquer coisa especialmente para nós. Há sempre um pormenor, uma palavra, uma expressão facial que nos toca, ou nos faz rir, como ainda não tinha feito nos espectáculos ou ensaios anteriores. É incrível como nós, ouvindo tudo pela 600ª vez, voltamos a sorrir, voltamos a gritar ou a chorar. Voltamos a vir cansados, despenteados pelo mundo lá fora, hoje mais vulneráveis ou mais irritados, e ainda assim tudo se repete: as falas e o choque, as gargalhadas e as palmas, bem como tudo o que temos de fazer para que a mensagem passe: quer estejamos bem ou mal, aflitinhos ou com sono. Tudo para que Alguém nasça algures no público, de todas as vezes.

Incrível como nós, todos tão diferentes, ficamos todos imóveis, espectantes, atrás dos panos, na mesma parte do teatro que já todos sabemos de cor, como se tambem nós o fizéssemos, como se colectivamente nos apaixonasse aquele gesto pela primeira vez. E as pessoas vêem. Vêm, aplaudem, vão embora. Às vezes voltam no dia seguinte. Vêem três homens milimetricamente ajoelhados num chão de azulejos, umas roupas estranhas, dois anjos, um cenário. Não vêm a multidão escondida, sentada e sobretudo de pé, desorganizada e espectante.

Não vêem o senhor que a todos cativou. Aquele senhor pequenino, já velhinho, com uma pronúncia estranha, que a todos conhece sem que ninguém saiba - porque não é preciso saber. Aquele senhor que guarda e cuida um génio, condignamente, humildemente. Aquele senhor que sonhou e montou e passou. Que não chegou atrasado, nem parte cedo de mais. Aquele senhor que também foi São José, que também foi Anjo, que tambem foi Casimiro, que também foi Caifás e Pedro e Judas, e o cego de nascença. Que observa, que ama assim como ele sabe. Que, a cada vez que o procurámos, nos ensinou a cultura, a alegria, o temor, mas sobretudo, a simplicidade de Deus.

Anjos e Magos ainda em cena, 18 e 19 de Dezembro, nas Patameiras.

quarta-feira, novembro 17, 2010

Azuki-Chan. :)

Alguém sonhou que o Facebook era esvaziado de "faces" e invadido por recordações de infância. A ideia passou; é o Facebook!
Pus-me a procurar pelos desenhos animados que passaram em Portugal na década de 90, e descobri uma montanha de bonecos que marcaram (bem, mais ou menos!) a minha infância. Mas não encontro alguns dos meus preferidos!
Eu era uma pessoa que se levantava às seis da manhã para ver a abertura da emissão. Nem que ficasse séculos a olhar para aquelas riscas às cores, eu ficava sossogadinha no imenso sofá da sala (na altura, sim, era um sofá imenso onde me afundava) a olhar para uma imagem estática à espera dos desenhos animados.
Alguém se lembra de uma série que se passava numa cidade repleta de seres de todas as cores que eram bolas com cara e pernas? Todos os seus nomes começavam por senhor ou senhora. Eu adoraaava aquilo, mas não consigo encontrar na net... Não encontrei muitos outros, de que já esqueci os nomes. Não os encontro...são recordações que não concretizo.
Engraçado como uma ideia de alguém no Facebook nos traz uma viagem tão íntima. Engraçado como as nossas viagens tão nossas, são ao mesmo tempo em parte partilhadas por toda uma geração. Engraçado como em algumas coisas, sem querer, nos vemos situados no tempo com precisão.

segunda-feira, novembro 15, 2010

312

Faltas tu. Faltas sempre tu.
Conhecer-me-ás, ainda? Tu conheces-me.
És um eu tão cá de dentro que o teu nome só faz sentido para os outros. Um nome que só faz sentido por fora, por si. Não por ti. Eu...eu sou tu. És-me num cantinho, quentinho, com cheiro a remédios. Com camas altas e janelas e cadeiras que rodam e sobem e descem. E sofás de cambalhota. Um cantinho que por existir faz com que eu ate pareça uma pessoa. Com qualquer coisa viva. Qualquer lume, qualquer bicho, qualquer alegria de..continuar.
É estúpido. Mas, por hoje, é só isso que temos. É que continuas. Gostava de lembrar-te que...continuar é bom. É mau, mas hoje é quase tudo. Gostava que soubesses que faltas. Só falta quem está. Quem é nós. Em quem nos deixámos.
Deixei-te-me. Vive-nos.

domingo, outubro 24, 2010

O grupo.

Um retrato de uma mulher empedernida, em cima da lareira. Impenetrável. Espantosa. Bocados de tinta descansam em paz na porcelana de uma lindíssima e aterrorizadora face.
A casa respira ao ritmo do leve ruge ruge de uma portada esquecida, de uma ripa do chão que se espreguiça, de uma porta que balança: de cá para lá; de lá, para cá: de cá para cá.
Só, completamente só, jaz o morto à meia luz de uma lua que se escapa por entre as frinchas da janela. O candeeiro, lá fora, antiquíssimo e belo, morreu há muito tempo, desgostoso. Não era a gargalhada estrondosa e cheia que fazia as paredes tremer, nem a cumplicidade sofrida ou a faculdade de doar que deixavam aquele cheiro. Não era o respeito, nem o silêncio construído a trinta e quatro mãos que pintavam, ainda no ar, cada nota do piano. Era o próprio ser. Era em si mesmo alegre, em si mesmo santo, em si mesmo dom. Perfeito...
Um retrato de uma mulher empedernida, em cima da lareira. Impenetrável. Espantosa. Se hoje alguém comungar do leve ruge ruge dos candelabros e reposteiros à moda passada, do cheio ao tempo que não passa (e que não traz rugas à fina procelana), e às longas bancadas de cozinha, olha-a e não a vê. Não sente, nunca, o podre morto jazido. Mas ela fica. Erigida muito acima das nuvens, a fortaleza permanece sempre. O morto, pura e simplesmente, desapareceu.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Convicção.

Eu sou um jardim. Como tu.
Como todos os jardins, eu sou ar, fauna, chão e bichos pequeninos.
E há um jardineiro.
Viver no meu jardim, sê-lo...é uma escolha que faço todos os dias. E deixar que venha o jardineiro mais as suas tesouras e enxadas é uma outra escolha, que também faço todos os dias. Com convicção.
Tu não habitas os jardins do meu silêncio, mas eu conheço-te quando me conheço a mim, e ao meu jardineiro. Posso ser-te também, e assim dói-te menos. Eu só quero que tu floresças o Outono! O jardineiro existe sempre, ele leva as folhas. Vai-se esquecendo de uma, de outra, para que tu lhes ames a cor. E não te preocupes...ele existe mesmo. Com convicção.

quinta-feira, outubro 07, 2010

primeiro Outono

Não posso fingir que não tenho esta necessidade.
Há dias em que não dá para fingir que não és tu.
É o primeiro Outono. O meu cão, a minha cã, a Cusca não está cá.
Não está.
As gotas caem, os cabelos deixam de secar, a chuva chove, o Panic tem frio.
E o meu cão, a minha cã, a Cusca não está cá.
Os pés começam a enregelar, as pessoas puxam das camisolas (e como todos ficam tão mais bonitos, de camisola!), os ambientes tornam-se húmidos e ninguém abre as janelas para não chover cá dentro...
E o meu cão, a minha cã, a Cusca não está cá.
A minha cama já não está salpicada de pêlos brancos e pretos. Já não tenho aquele ser tão meu em cima dos meus pés, encostado às minhas pernas, abraçado na minha posição fetal.
As gotas caem, a chuva chove. Em breve chegam as trovoadas.
O meu cão, a minha cã, a Cusca...não existe.
Para nos ensinar que todos os Outonos são o primeiro.

terça-feira, setembro 21, 2010

Quando eu for grande quero ser camionista.

Descobri que há algo entre os peregrinos e os camionistas. Está lá, de facto; é inegável.
Talvez um, ao olhar o outro, se reveja nele. Talvez se veja ao espelho, veja alguém igual a si. Na solidão de cada quilómetro e na dor de conduzir o que lhe foi confiado. Na dúvida de conseguir matar mais a necessidade de parar, e depois no aborrecimento de ter de o fazer. Ambos fazem caminho, e caminho fazendo alcançam objectivos. E recebem cada qual o que lhes compete. Cruzam-se na estrada e saúdam-se. Cada um como tem, como é, diz. Qualquer coisa. E naquele segundo...o caminho é a vida que queremos ser. Os ténis não passam a ser pantufas, nem as bolhas um pesadelo distante. Mas tu és o meu camionista e eu sou o teu peregrino.
Claro que só quem peregrina sabe do que falo. Mas creio que há sempre um camionista para cada peregrino.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Nome e definição

De sonhos, de receitas, de compras, de filmes, de livros, de moradas, de nomes completos, de emoções, de qualidades, de valores, de silêncios, de post-its, de chás, de casas, de palavras preferidas, de fotos, de músicas, de poemas, de autores, de lugares, de coisas que me lembro, de bilhetes, de refeições de que gosto e de refeições de que não gosto, de pedras, de frases, de slogans, de postais, de anúncios, de aniversários, de prendas de Natal, de afazeres, de genealogias, de salmos, de saldos, de cartas, de notas da escola, de mensagens de texto, de e-mails.
É isso que eu faço. Eu inventario.
Sou um catálogo de inventários, um inventário em mim mesma, e o meu quarto é o meu ovo. Onde tudo cabe, onde tudo se concebe, onde tudo ganha nome e definição. Porque o meu quarto está e é parte do "palácio de meu pai, onde todos os passos têm um sentido".
Um inventário em mutação. Por isso é que me juntei ao ICheckMovies, por isso é que sou geocacher. Para inventariar sítios e descobertas e passeios e histórias e filmes. Eu inventario.
Renato Russo pedia-nos que fizéssemos uma lista de amigos e uma lista de sonhos. Exupéry disse que era bom que tudo fizesse sentido. Há pessoas que gritam. Eu inventario. Mesmo que isso implique escrever num papel tudo o que o meu ovo contém.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Fora

Ás vezes, é só o que é preciso.
Pôr a cabeça de fora. Prender o medo aos atacadores e assentar no diafragma. Como...quem come uma lapa pela primeira vez.

sábado, agosto 07, 2010

Eu não ladro quando tenho medo.

Ele disse-o em voz alta. Houve um dia em que foi, assim de rajada. Dói-nos dizer as coisas. Porque saem do sofá pensativo de nós mesmos, onde tudo é uma ideia, para o universo imutável daquilo que já foi dito, já foi feito e já passou. Porque se tornam essa verdade que somos, que respiramos, que doemos.
Apavora-me. Mais que o escuro, bichos e gritos, todos juntos. Tenho medo de não estar ali. De não ter estado antes, ou de poder ter feito melhor. Medo que comece, que acabe. Medo de não ser. De dizer e de não dizer. Medo de não saber escolher as palavras, porque normalmente não sei. Tenho medo de me perder.
De perder a minha pessoa.
Ele ladrou. Mas e eu? Quando vou perder esta batalha?

quarta-feira, julho 21, 2010

[wait for it]

Hoje choveu.

.

E como em todos os dias em que choveu, eu cheguei lá fora e

respirei.

terça-feira, julho 20, 2010

Assim Partiremos

"Partimos. Vamos. Somos."
O Nogui pediu-nos que mostrássemos ao mundo de que é que somos feitos. Então toma, mundo. A nossa convicção de que esta não é a nossa obra, mas a obra de Deus. A nossa vontade de ser onde estamos e ao mesmo tempo chegar mais longe, muito mais longe, tão mais longe. A faculdade que temos de conhecer, quando sabemos que "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá.".
Estamos novatos e não temos experiência. Temos medo e sentimos amor. Já sabemos como funciona mas continuamos sem saber desenvencilhar-nos sozinhos. Mas subimos ao palco e ela está lá. Como em todos os nossos projectos. Vem da entrega, da pequenez. Vem de dentro. Mas é uma luz que está lá sempre.
E sim. Provavelmente, um dia teremos de nos separar das nossas recordações, para podermos estar verdadeiramente mortos, verdadeiramente livres. Mas hoje, especialmente hoje, é tempo de as fazer.

terça-feira, junho 29, 2010

50.

Acaba o ano pastoral. Dão-se contas. Vai um prior embora, e vem um outro. As pessoas morrem. Ou fazem anos. Ou faz anos que morreram. Ou fariam anos de vida se ainda estivessem vivas.
E eu descubro novas possiblidades, novos sítios para explorar, com aquele tempo que acho sempre que não tenho e que sabe tão bem gastar quando é muitíssimo bem gasto. Descubro, até, novos tios. E a melhor parte é que são os mesmos que já cá estavam há 17 anos, mesmo aqui ao pé da mão! E já cá estavam, já para mim, para eu os conhecer, muito antes de eu estar em qualquer lado.
E chego aqui. E apetece-me ralhar com os meus pais, porque nunca me avisaram que o tempo ia ter passado antes de eu saber que ele existia (antes mesmo de eu abrir os olhos!), quando sabiam muito bem que era assim que funcionava. Tanto um como o outro. Avisaram-me que eu ia cair muitas vezes, mas não me disseram que ia haver vezes que doíam mais que outras. E se o mundo fosse como eu acho que devia ser era horrível porque então nunca ninguém podia fazer as pazes, ou arrumar os quartos, ou descobrir pessoas dentro das pessoas, e eu nunca teria sentido a contracção de todos os músculos da minha cara ou um percorrer ácido nos meus pulmões ao abraçar o meu pai. Mas estaria agora a beber chá que sabia a Ice Tea e a comer bolachas de chocolate e a invejar um cabelo invejável.
Embrulham-se, depois de terem doído tudo o que havia para doer. Agora doem só de vez em quando. Vão ficando, mandam uns bitates. Nós vamos sendo. E o tempo...o tempo é como se não existisse, aqui.

segunda-feira, junho 21, 2010

That's what I do.

Porque sim, chegar a casa é isso mesmo: estar, de novo, em casa. E se tu és, de alguma forma, a minha casa, então quando eu lá chegar, assim como a casa continua a sê-lo assim que lá chegamos, também tu vais continuar a sê-lo.
Ela fica no mesmo e exacto sítio onde a deixámos, com tudo no mesmo lugar. Os candeeiros, os sofás, as bolachas, tudo. Até os pêlos dos cães continuam no mesmo centímetro de chão, e as saquetas de chá na mesma prateleira do armário. E porque é uma amizade verdadeira, podes ir e voltar. E a porta por onde podes sempre sair é a porta por onde podes sempre voltar a entrar.
Eu não vou sair daqui.

sábado, maio 29, 2010

segunda-feira, maio 17, 2010

Eu Acredito

Que palavras? Tantas, sobre tanta coisa diferente... Umas mais importantes que outras...é certo. Mas está tudo. Quem tiver dúvidas, que as tire. Não há como viver uma verdade: tem resposta para tudo! Há só que procurar no sítio certo...

terça-feira, maio 04, 2010

vento lisboeta

(assim mais ou menos à Rita)
Estive lá hoje, na Praça do Comércio, a ver os homens trabalhar o altar.
Gostei mesmo. Não porque estivesse bonito, ou o ar cheirasse bem, mas talvez a certeza de que algo grande vai acontecer ali... A sensação de poder, eu, sozinha, estar ali, à espera... Sou cativada de nascença, e anseio, sofro por antecipação, como Exupéry tão bem soube explicar.
Sentei-me lá, no meio da Praça, no chão aos papagaios. E ficámos, eu e o meu caderno, a ver as pessoas, a tentar distinguir o Vasco da Gama do Viriato...e dos outros dois senhores. E o vento lisboeta despenteou-me e vesti a camisola e continuei o meu caminho. Não costumo andar sozinha por sítios que não conheço. Mas Lisboa...sinto que nunca conheci, por muitas vezes que por lá passeie. Nunca sei se é esta rua, ou aquela, ou onde está o multibanco, se é esta a igreja, ou aquela casa, ou se já ali passei ou não. Parece sempre que não. E sorrio, sempre, quando alguém grita para alguém, muito frustradamente, Oh minha Nossa Senhora!... Há coisas que guardamos, quando passamos por elas. Não como se roubássemos uma fruta, mas como se apanhássemos um dente-de-leão no ar e metêssemos no bolso, à espera do lugar ideal para o largar. E do fundo da rua, Oh JAQUIM!! Oh, desculpe, minha senhora. Jaquiiim!...
Respira-se diferentemente. Era um dia como os outros. Mas hoje, especialmente hoje...tinha uma estranha alegria de ser, no esperar, no poder sentar e olhar, no ter dinheiro no bolso e pensar Não vou gastar coisíssima nenhuma., no andar à procura das coisas e sentir que o cansaço não ia vir nunca, enquanto o meu corpo respirasse Lisboa. Uma Lisboa que espera o Vigário do verdadeiro Cristo. E hoje, especialmente hoje, não estava sozinha.
E isso...isso sente-se.

quarta-feira, abril 14, 2010

Com o nariz.

A minha professora de Filosofia ficou boqueaberta quando lhe dissemos o que líamos. Os alunos de Humanidades não lêem?! É como um pintor sem pincéis! Faz como? Com o nariz?!...
Quando há uma proposta, há uma decisão. Em jogo fica o tempo, a energia, o pensamento. A pessoa toda dá-se àquilo que se determina a fazer. Há só que determinar-se, porque o resto chega sempre a tempo. E sai perfeito. Porque não podia ter sido melhor, porque se alguém se determinou a fazer então jogou aquilo que tinha. Estava determinada, possa. E fez-se. Claro que se tivesse sido isto ou aquilo de outra forma, teria sido melhor. Ou pior, não sabemos. Mas foi perfeito, porque o que podia ser feito, fez-se. Há só que determinar-se.
A determinação, a convicção, a convicção verdadeira - pesada, medida, pensada...é sempre, sempre igual a um Faça-se. A um enorme Faça-se que se torna vento e verdade, mesmo que seja um trabalho de História para ontem à tarde. E sobre a peste que assolou o século XVI, e as pessoas mortas apodrecidas dentro de casa em que ninguém queria tocar. A um Faça-se que se Faz, em espírito e verdade, mesmo que seja com o nariz.

terça-feira, abril 06, 2010

Sol da meia-noite

não ha morte sem homem

não sem homem há morte

não há homem sem morte

não sem morte há homem

não sendo homem a morte

não sendo morte o homem

vai sendo o homem a morte

vai sendo morte o homem

falando não a morte

falando não o homem

vai sem homem a morte

vai sem morte o homem

Ernesto

quarta-feira, março 10, 2010

Parte.

Aos cães, quando fazem quimioterapia, não lhes cai o pêlo.
Mas também morrem, sem música e sem faculdade, e sem fecharem os olhos.
Confiam-se aos donos até ao último segundo. Mesmo sabendo, porque eles sabem, mesmo adivinhando, porque eles adivinham, mesmo conhecendo, porque eles conhecem. O dono é sempre o dono, e ele faz tudo por que o cão viva enquanto a vida for vivida. Então, o cão não teme. Pode temer trovoada, guarda-chuvas, harmónicas, cães mais (ou menos) assustadores. Teme que lhe roubem os filhotes, que lhe roubem o dono. Mas do dono não duvida.
Adoecem, mas continuam a proteger a casa com unhas e dentes (sobretudo dentes...). Enfraquecem, mas nunca desistem de tentar guardar as lágrimas entre duas lambidelas. Envelhecem, mas não se esquecem de quem é o dono, qual é a casa, quem é que lá vive, e quando é que ela acaba.
São parte. Quando chegamos, são a primeira parte da casa que chega, e são quem sabe que chegámos ainda antes de termos chamado o elevador. O cão é o pai que recebe o filho pródigo de braços abertos, ou aos saltos, de rabo a abanar com tanta violência que as patas escorregam no chão, língua de fora, a puxar as mangas da camisola. O cão sabe, quando é amado. Percebe e conhece e fala.
E depois morre, sem música nem faculdade, deixando-se cair nos braços de quem o criou.

sábado, março 06, 2010

Mwanito, não me deixe sozinho.

Dói? Sim, sozinhos, dói.
Muito? Pois.
.
Mwana era o afinador de silêncios pessoal de Silvestre Vitalício, seu pai. No silêncio, tudo deixa de doer. Foi o mistério que o irmão Roger soube desvendar ao mundo.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Casa.

Ter uma casa para onde voltar. Uma casa que não passa, não se fecha, não arrefece.
Este é aquele ponto onde há duas ou três cadeias montanhosas de histórias, episódios, alegrias para contar de um fôlego só. Mas chegar, chega, e quem conhece quem chega já teve quanto bastasse. Há qualquer coisa que é nova e de sempre ao mesmo tempo, e que nos aquece o coração. Casa.
É o que fica. É a relva sobre o abismo. É onde todos os passos têm muitos sentidos. A casa não morre, não desfalece. Entristece-se, respira, dorme, mas não desiste nunca. Porque sabe sempre, porque sabe que só assim faz sentido, porque conhece aquele calor que irrompe quando alguém chega.
Uma casa que não passa, não se fecha, não arrefece. Voltar.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Post-it

Estou gelada. O meu quarto está gelado.
Procuro uma coisa com carácter de urgência. Doem-me as mãos, e mexer os dedos, e pegar nas coisas. Os meus dedos parecem queimados de tão frios.
Tanto frio.
We don't own time, ressoou na minha cabeça. Sim, eu sei, mas queria mesmo encontrar...
Fui. Gelada. No meu mp4, com metade da cara enfiada na gola do casaco.
.
Preso algures, um post-it amarelo.
Preciso de ti.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Tempo

É tudo um puzzle mental.
Não uma tabela de prioridades, mas de circunstâncias. Como Ortega, e depois João Manuel, eu e a minha circunstância descrevemos a minha acção, as minhas prioridades, o meu tempo e, consequentemente, o meu sono também. Depende de como o usamos [o tempo de que dispomos], ou de como dele prescindimos., escreveu mac.
Fiz uma tabela bué gira no Excel. A minha semana a direito, com um estudo azul, outro a verde e outro a laranja, reuniões castanhas e tarefas domésticas de um azul mais levezinho. Tempo livre amarelo e escola cinzenta. E ela, a tabela, chora, grita, da parede branca do quarto.
Que é importante o brio, ninguém duvida. Que é essencial respirar, ninguém questiona. Equilíbrio é para os senhores que andam e saltam em cima de cordas. Este é o meu puzzle e ele mostra que a minha ciscunstância se eu não couber não há.
Descobri a enfermidade da minha tabela do Excel. O que é urgente é, e alguém faz. Eu prefiro respirar.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Eu posso tudo.

O grande Hugo dizia que não é nosso, só emprestado. E o Vasquinho dizia Pois e sorria um sorriso graaande e eu ficava a cogitar naquilo até cair para o lado. Caía para o lado porque o sorriso do Vasquinho era mesmo muito grande, tinha covinhas e tudo.
As coisas embrulham-me às cambalhotas, mas eu acho que é tudo uma conspiração porque elas querem que eu pense que sou eu que me embrulho nelas porque não soa muito bem dizer que uma coisa empurrou uma menina que já devia ter juízo.
Não é nosso, tinha dito o grande Hugo com aquele ar tão importante que ele tem.
Quão grande é isto?
Toda a liberdade, toda a responsabilidade, toda a pequenez, toda a alegria...tudo nosso! Saber que um dia vamos poder chegar e dizer Toma com um sorriso grande como os do Vasquinho. Porque não é nosso! Tudo depende do sumo que fazemos com as tintas que nos deram. E este sumo depende obrigatoriamente de saltos, de ares importantes e de pois.
Olhaa, trouxe isto, e isto, e este assim e ... Bem...hum... Toma.
Tudo posso. Assim.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Tristesse.

A tristeza é permitida. Tem de ser.
Tudo há-de ser permitido enquanto circular dentro das fronteiras daquilo que faz sentido no ser. Como a medicina, a educação, a verdade, o amor e a parvoíce e o cotão. O espaço. Um momento. - e depois o resto.
Porque aqui, a reacção não é imperativa. A tristeza não é algo a que se reaja, por ser já uma reacção que paraliza, de alguma maneira, outras reacções.
Mas o resto. A tristeza vem de dentro, e nós vivemos para fora. Permito-me, sim. Há alguém que abraça. Fale ou não, conheça ou não, tudo o que pode fazer é isso. E o resto virá, incólume. Ou nem por isso.
De uma maneira ou de outra, são as linhas com que se cose.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

2010

I have this new pijama. From my mom.
It's stripped and black and white and...grey.
There's always this feeling something has to change. Cause one day day tea's cool and we don't even notice anymore. I don' want to have cool tea every morning, but he's there!, and I always figure out a way of not saying a word, so I always keep it, and always know tomorrow he'll be there again. Cooler.
But there's always this feeling we can do something. Actually do something. To change. We know we can do something, almost anything, and many of those things could change it all, but... It's morning. We get to the kitchen. And there he is. Threatning. Ours. Maybe we could...just... Hmpf, I got to run, bye! Like Pablo Neruda's postman's coffee, "Tomo-o sempre amargo".
Have I told you I have this new pijama?
Yeah, my mom bought it for me.
Maybe it wouldn't hurt if I put in on, someday, don't you think?
I thing I saw something red on it. Weird, hug?

domingo, dezembro 20, 2009

"Velho, velho, velho"...

Olho-os. Eu cresço, eles envelhecem. Os anos cobrem-se com a pele como um cobertor, e eu vou contando as dobras.

Daqui é como se não mudassem. E por mim era sempre assim. O meu pai embaraçado sem dizer, nunca dizer o que sente. Em todos os Lethal Weapon, Roger Murtaugh (Danny Glover) dizia "I'm too old for this shit". E eles vão estando velhos o suficiente para as coisas.
Vergílio dizia que "ser velhor é ir sendo pouco", mas eles não são esses velhos. São aqueles que já fizeram, já sabem, têm, e agora olham. Observam. Contemplam. Uns, com "iogurtes com pedaços" entre os dedos que ainda estão longe da reforma. Outros, que silenciam o espaço como que por magia quando falam.

Diz-se que vai nascer um Menino agora por esta altura. Aqui nasce assim, e eu não conheço outro. No tempo que passa como a vela que arde. É aquele fogo que nos dá sentido... Queria ter uma que não morresse nunca!

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Toma.

Olhava com o olhar de quem recebe o que é dado, de quem não sabe, de quem crê não ter como responder. Era quem não cabia em si. Era quem não sabia o que era para estar naquele lugar.
Disse só "Toma. Guarda.". É meu, e por isso é teu, quis dizer, mas falou só por olhar. Não queria uma festa, não queria um obrigado, porque não faria sentido. Dar é dar. E não é a qualquer um, é àquele ser humano específico e em especial. Não queria um abraço, um olhar, sequer. Porque aquele dar chegava, bastava-se, para dizer tudo que fosse preciso. Estás aqui e eu quero que tomes, que segures, que guardes, que leves, que sejas. Sou eu e és tu e eu saio de mim para ti. Sou tu, aqui. E a partir daqui, tu és o que tu entenderes.
Dar é dar. É ser um outro. Não somos maiores, mas há algo de maior em nós. Não transbordamos nunca de nós, mas de algo diferente. Algo maior. Algo que brota, que grita, que precisa de um Outro. Dá-se, porque só se pode dar. E dar assim...é ser. É amar. É chegar.
Não dói. Antes nos queima aquela sensação de que fizemos tanto esforçando-nos tão pouco. E olhamos nos olhos aqueles olhos. Tão fora de nós, tão distantes em tantos sentidos, mas tão perto, e tão iguais aos nossos... Está aqui. Toma!

quinta-feira, novembro 26, 2009

morar

Queria contar-te uma coisa, sabes?... É. Mas para isso preciso de remontar às ervilhas que comi aqui no Verão e que, para desgosto póstumo de Exupéry, me deixaram estragada. Cresci então uma ervilha na barriga. Trago-a comigo, e ela cresce. É uma ervilha estragada – é aquela que me avariou.

Hoje sento-me num canto, mesmo debaixo da estante dos Ésses (Rodrigues dos Santos e Saramago espreguiçavam-se escandalosamente ao longo das prateleiras mais baixas) e colho um Silva. Uma Gota de Chuva, dizia ele. Uma gota de chuva. E só bastou.

No caminho para a continuação da minha gestação, esbarrei com O’Neil, que estava sentado mesmo a seguir à esquina da ala do Camões lírico. Falou-me da vertigem que nós éramos, a vertigem entre o real e o sonho, disse ele, com aquele olhar de quem semeia mas não olha para onde. E já o Vergílio tentou, quando era vizinho, morava no 5º andar, lembro-me tão bem... Falava de relógios e de velhos e coisas do género. Tinha de repetir sempre o que ele dizia para poder perceber ao menos o encadeamento das palavras, até que emudeceu.

Mas só aquela estava estragada. Só aquela me estragou. Só aquela não traguei, tendo deixado de poder tragar. Era intratável. O infame!

É isso. Desculpa. Estou estragada. Um homem morto e desgostoso tem a culpa. Ele é que não arrumou antes de partir, e eu tropecei naquele quarto... Eu farei, a sério que sim. Fazer sempre a cama antes de ir.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Sorvo.

Hoje há nova Jerusalém.
Lisboa. Lisboa. Além-mar, Cristo Rei. Um sorvo só.
Senta-te. Não chores. Visita-a. Esta de casas e casinhas, que tem o Martim Moniz e o Castelo de São Jorge, e o Tejo e os pássaros e os eléctricos e a ponte. Chega. O princípio é vir, é ir, é chegar.
Porque amar é estar sempre chegando.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Rápido.

Caminhava mais rápido que sempre.
Já não sabia de cor tudo o que precisava de saber para chegar mais rápido, porque já tinha tudo tão entranhado desde o primeiro dia de sol que agora não precisava de pensar no caminho e podia usar esse tempo para pensar no resto, no tudo, no que estivesse a seguir, no resto da vida.
E não havia tempo a perder, porque não haveria nada a ganhar em perder esse tempo.
Nada, por certo. Por certo...
E ia, e vinha, e ia, e vinha. E tudo era assim, e tudo funcionava. Um ir e um vir. Um descer e um subir. Um chamar e um fugir. O poder de se poder desembrulhar o papel de parede sem saber propositadamente se não se está a embrulhar-se nele. E embrulhar e desembrulhar e embrulhar e desembrulhar e embrulhar e desembrulhar e dissecar e descobrir a ponta, e depois o resto, do acre do piquenique.
Quem anda só chega a horas. Mas só se traz a si nas mãos.

sexta-feira, novembro 13, 2009

7:31

Só mais um bocadinho, va lá. É só mais um bocadinho.
Quero ficar aqui e nunca mais sair. São agora 7:30, 7:30, 7:30 da manhã, e é necessário, estritamente necessário abandonar o quentinho, o quentinho aqui...este, isto. Isto, isto, isto, isto. É este isto que é bom, e daqui a nada já se foi. Porque saí e está frio lá fora. Porque saí e vai deixar de ser quentinho, aqui. Meu. Meu. Muito meu.
Depois? Depois beberemos o que ficou. O chá arrefecido e aquecido. Que ainda é chá, aquele chá, mas já não sabe ao mesmo.
Não! Aqui! Isto, milhões de vezes isto! Milhões de vezes a infantilidade, a inutilidade de querer agarrar um segundo para sempre... Tenho medo do escuro, do escuro de me esquecer do sabor deste quentinho! Do escuro, aquele escuro, de me assombrar a memória de que um dia arrefeceu. Só mais um bocadinho...
Sim...?
.
7:31.
[escuro]

sábado, novembro 07, 2009

Puxa!

Não é ser exigente. É não ser contraproducente.
É essencial que as coisas funcionem. As flores que fazemos dão fruto e semente. E as sementes germinam e o ciclo recomeça. Sem nós! E só assim - já sem nós - funcionam em facto e verdade.
Falta. Ainda há muita coisa urgente por fazer, e todos sabemos isso. O ponto não está aí. É que, para além do que é urgente, ainda há coisas importantes a fazer. O que é urgente alguém fará. E isto, isto é importante. Verdadeiramente.
Não se trata de exigir, mas de ser.

quarta-feira, novembro 04, 2009

BANG BANG YOU'RE DEAD

(Josh) O que é isto? Quem está aí?

.

(Michael) Então fazes da tua cara uma máscara.

(Katie) Uma máscara que te esconde a cara.

(Mattie) Uma cara que esconde a dor.

(Jessie) Uma dor que te come o coração.

(Emily) Um coração que ninguém conhece.

.

Texto William Mastrosimone
Tradução Sofia Torres de Carvalho

segunda-feira, novembro 02, 2009

Isso e couves.

Era cortar-lhes as cabeças, espetá-las em paus, plantá-los ao sol até secar. Ou então deixarmos de ser idiotas, que também serve e é ligeiramente mais económico.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Chove.

Chove como se nevasse.
É um esforço que se faz.
Às vezes, para respirar.
Mas é um esforço.
E isso conta só por si,
e viver assim deixa-me feliz.
Hoje chove como se nevasse. E nem sempre quando chove chove como se nevasse. Não é sempre. E nem sempre quando chove como se nevasse eu dou por isso, por isso são ainda menos as vezes em que para mim chove como se nevasse.
É um esforço. É sempre um esforço. (É por ser um esforço que há reforços...!) É por haver esforço que há certezas. É por haver esforço que andamos em cima de dois pés. É por haver esforço que não há de que ter medo.
.
E...frio. Há quem seja lindo e tenha frio.
Porra, ninguém me tira isto.
Vou chover. Como se nevasse.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Non abbiate paura!

Em português de Taizé, nada há a temer...

E isto é fácil quando é fácil. Até por definição.

O resto? O resto é quando cresces, em facto.

sábado, outubro 10, 2009

linhas

Ela tinha uma certeza naqueles passos, como se todos os passos tivessem um sentido. Algo maior expandia naquele peito, e isso transbordava, mas só para quem olha.
Há uma certeza, ao ir, de que está tudo. Onde devia ou não, bem ou não...pouco importa. O que está, está. E o que está, está bem. São estas as linhas com que se cose. E é isso que aquele peito e aqueles passos tinham de especial. Não estavam cheios de si, nem de ninguém, mas de algo maior. Algo maior.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Lalala, j'suis un escargot!

Avant tout, je suis celle qui demeure.
Je suis un escargot qui se demeure, mais qui passe. Qui passe au côté ou devant les choses, mais qui ne passe pas sans les connaître, sans les connaître dedans et en vérité. Et c'est ça car je me demeure: n'oubliez pas ma condition d'escargot!
Pourquoi est-ce que je me demeure, vous vous questionez. Comment ne pas me demeurer, je vous demande... Avez-vous vu les gouttes de la pluie d'hier posés dans le frais gazon du jardin? Voyez-les, s'il vous plaît! Dites-moi, dites-moi si elles sont ou pas la demeure d'or que je ne peux pas voir, seulement sentir...
Je me demeure et je demeure. Et je passerai.

quarta-feira, setembro 30, 2009

O início.

Não é difícil despedires-te. É chegares ali, àquela barreira, seja onde for que a criares, e dizeres Adeus. É o bastante.
Aí colocas tudo o que sentes. Não por te estares a despedir, mas por ser assim que a vida se vive. Não será necessário mudares o modo de viver por uns minutos - aqueles, a despedida - ninguém quer que sejas outro quando te despedes.
Porque a despedida é unicamente uma coisa que dizes. Di-lo, sem medo de dizer. As palavras não te vão comer. Não evitará a partida o facto de adiares as palavras. Diz tudo, diz cedo, e depois cala-te. É relativamente fácil. E bastará, ainda que não pareça.
Alguém dizia que quando nos aproximamos do final, voltamos sempre ao início. O início. Todos os inícios são uma história, e quase todos são mais que uma história. Contamo-la ao nosso ninguém como a uma criança - uma história mais ou menos apetitosa: consoante o tamanho do sorriso que trouxer.
Bem vistas as coisas, porque não nos calamos?

segunda-feira, setembro 28, 2009

FAME 2009

Uma reedição do original, que data de 1980. Um FAME na Nova Iorque de hoje.
Estreia a 1 de Outubro no cinema português e eu tenho de ver.

terça-feira, setembro 22, 2009

Minuto

E depois olha-se e já passou. Já passou a Primavera e o Verão e muitos Outonos... Quando foi que ficámos com os Invernos, amigo?... Lembras-te?
Era uma tarde de semana, um dia qualquer. Estávamos a caminho do Mc'Donald's. E veio o gelo invadir o nosso Outono jovem, quente e castanho e cheio de poças, para tudo tornar branco, tudo gelar, tudo adormecer, tudo anestesiar...
Tu não estavas, como poderias lembrar-te...?
Foi sobretudo por não estares que tivemos a certeza que o Inverno tinha chegado. Para ficar.
.
O tempo passa, pega em tudo o que quer e leva. Ele que leve.
O nosso segredo ainda é nosso: a força maior que o mundo tem.

quarta-feira, setembro 16, 2009

segunda-feira, setembro 07, 2009

O Outono II

Deste-me um beijo. Virei costas, ajeitei o gorro e abandonei o espaço em que ficavas, aceso e distante: recônditos e aconchegantes refúgios de mim.
E estava a chover. Aquele som invadiu-me, como se de há anos atrás se tratasse. Aquela imagem, mágica, do chão pintado de pedaços de céu, impregnou-me daquele cheiro.
E lembrei-me, de súbito. Da nossa chuva. Até o meu nome, que há muito deixara de me fazer cócegas na nuca. Aquilo que era o princípio e o fim de nós, o início e o final de tudo quanto, juntos, tocávamos com as pontas dos dedos.
Tanto porque chegaste inesperado como um aguaceiros, logo no primeiro instante, como sempre foste - aquela presença que me encharcava em alegria, que me enchia de liberdade para transbordarmos em confiança...eras a criança que havia dentro em mim, e que me fazia querer chapinhar em poças e rir à gargalhada...
Tanto porque a minha chuva eras tu. O meu suspiro, o meu alívio, o meu conforto, o meu amor, o meu abraço, a minha frescura, os meus esguichos, o meu arrepio a cada momento que vislumbrava esses olhos doces ou sentia a tua voz bater em cada pedacinho de dentro de mim...
Hoje vais e voltas e tudo quanto é teu não dura mais que um instante. Hoje apareces e desapareces com a rapidez e instensidade com que aquelas gotas chatas nos acertam exactamente entre a nuca e a roupa que nos cobre as costas.
Não deixa de ser curioso. Amo-te como - parece - desde sempre. Nada mudou de lugar, mas acho que ele não conseguiu ficar no mesmo sítio. Não podia, né?
Vai. Farei de cada tempestade o meu mais profundo aplauso. Lembra-te de mim.
Vai. Não preciso de ti para te amar, porque te amo - mesmo - assim. Vai. Sonha, corre, luta. Vencerás.
Vai. Nada me faria mais feliz que saber-te feliz.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Saltinhos

Há dias para tudo. O que é uma grande mentira. Nós é que podemos tudo.
E é assim. Ele está.

terça-feira, agosto 11, 2009

"Cum escamartilhão!..."

Eu descobri que estar chegando é estar partindo ao mesmo tempo.
Não há cá metafísica: é tudo software. A alta tecnologia dos pequenos sinais de vitalidade liga aqui e aqui e aqui, em sítios que não se vêem nem se pegam.
No sistema central, a Unidade da Dor vive consciente de que a dor não termina, dê por onde der, e a boa notícia está por aí: a dor não termina. Simplesmente não termina. É aqui que começa a minha liberdade. Tal como Thibault queria, na verdade.

sexta-feira, agosto 07, 2009

assim sem mais nada, com voz de rádio antigo

Pois eu tive um sonho.
E dançava-se e tudo. E não era tudo bom, porque não era daqueles sonhos queridos e fofos. Continuava a existir cancro e fome e o alcool continuava a ser a 4ª causa de morte em Portugal.
Eu tive um sonho.
Eu tive um sonho e depois acordei, e não posso dizer que a realidade fosse melhor, porque não sei, mas talvez não fosse - como já disse, não sei, - mas o que é facto é que. É o quê? Well, basicamente, Há aqui coisas. E isso conta.
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Mais do que tudo.

quarta-feira, agosto 05, 2009

come. e cospe.

Charlie Chaplin estava enganado.
O riso e as lágrimas não são antídotos contra o terror. Porque antídotos anulam venenos.
O riso e as lágrimas antes são subterfúgios. Antes são máscaras, são desculpas; saídas boas e convenientes. E fáceis.
O terror está lá e lá fica. Tal como o medo. Tal como o pavor e o nojo e a dor. Ferem, destroem, escarafuncham. Quanto mais forem disfarçados, mais diluídos, mais escavam, mais roem, de maneira mais atroz de cada vez.
Ri-te, porque rir faz bem! E depois chora, chora tudo aquilo por que te vai apetecer chorar. Não vai ser pouco! Chora. Chorar faz ainda melhor do que rir. E depois reage, como toda a gente que se encara e se afia e desafia para riscar e arriscar. É a altura em que tu cospes. De surpresa. De nojo. Passou o riso e o choro e tu percebeste que o terror ainda te sorria, à tua frente e a comer da tua mesa.
Tua?
Não. Haha. Nãão. Nada será sempre nosso.
Se isso te sossega, nem o terror.

Segredo, como a cor.

São de quem esconde. São de quem tem.
São um por enquanto, mesmo que seja eternamente.
.
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Não gosto, pronto. Só isso. Peço desculpa, então.

terça-feira, julho 28, 2009

Ano 2000

Na capa do manual de Língua Portuguesa estava escrito um poema de que nunca mais me esqueci. Salvo erro, de Alice Vieira. (Se estiver errado e me lembrar mais tarde do nome correcto, venho cá corrigir.)

Lá estava, escrito à mão, em letras gordas e...hum...de principiante. Hoje ainda é verdade. Como o sol.

Gosto da palavra e da letra

Gosto de quem a escreve

Qualquer letra ou palavra é preta

Num fundo branco de neve

domingo, julho 19, 2009

Atrevimento

Uma viagem silenciosa, como quem está no meio da rua a ver um furacão chegar. Não é bem medo. Antes uma confiança estranha no que está para vir. Bom ou mau...nada a temer: é uma experiência.
Gosto de me sentar no chão e cruzar as pernas "à chinês".
Espero, apenas, pelo que vem na travessa para a minha mesa.
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Atrevo-me a ficar, tão somente, a vê-lo chegar. Por vezes, corro para ele na ânsia incontida; por outras, recuo um pouco para ganhar algum tempo que ainda me é útil. No final, e seja como for, é sempre um encontro desejado. Ele vem ao meu encontro e eu espero-o no meio, no centro, onde a pressão é nula.
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É assim que tudo posso: está tudo bem.
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Pois é. Fui para um convento. Se doeu? Obviamente. Enxertos de porrada deixam sempre as pessoas - que sentem - doridas, com nódoas e cicatrizes provenientes das investidas mais certeiras. Não nasci de novo. Não mudei de nome. Não mudei de vida. Mas estou aqui...dorida...e a digerir.

sexta-feira, julho 10, 2009

téni

Ténis? Tennis?
O que é certo é que tenho um sapato no tecto.
Ao contrário, i. é, de cabeça para o ar. Se é que os sapatos, ténis, tennis, têm cabeça. Bem vistas as coisas, o téni (ténis?) não é meu. Nem o tecto.
Mas está lá, o sapatinho. Pendurado pelos atacadores com um laço, com a sola virada para cima, no céu do quarto onde eu durmo.
Há pessoas que fazem ahh depois de beberem água. Há pessoas que escrevem livros, e também as há que não os escrevem. Todas as pessoas são estranhas pelas coisas que fazem, sobretudo porque fazem essas coisas não as outras possibilidades de coisas para fazer. Há pessoas que dizem téni, e também isso nos diz qualquer coisa.
O que é estranho, então? Tudo? Gosto que sim. Afinal é isso que nos apaixona nas pessoas.
Lembro-me de estranhar escrever o meu nome. Era assim que eu me chamava, e agora podia escrevê-lo.
Voltar a olhar. Uma primeira vez.
No tecto, ao menos, não está desarrumado.

segunda-feira, julho 06, 2009

Rolling Stones

Às vezes, tudo o que eu queria era um dia cinzento.
Às vezes nem queria, só precisava.
Só um, nem tinha de ser o dia todo, só assim um bocadinho durante a tarde, por entre a gritaria e confusão deste sol cataclítico.
Mas a gente não manda. E eu sou um bocadinho de gente. Se a gente não manda, bocadinhos dela mandam ainda menos. Right?
.
No entanto, às vezes, não só o dia fica cinzento e escuro, e fresco e ventoso, e limpo e grande, e espaçoso e cheio, como também se farta de chover e ainda nos cai uma senhora trovoada em cima. Passa-se ali um dia inteirinho - inteirinho! - em que o sol não atrofia cérebros nem músculos nem poros, se limita simplesmente a preguiçar sobre as fofas nuvens que fazem o favor de chover cá para baixo. Alguns bocadinhos de gente ganham ainda a possiblidade de passear - individualmente ou não - debaixo dos pingos indefinidamente sistemáticos e torrencialmente sequenciais daquela liberdade imensa e de depois ouvir a serra respirar ou sentir a cidade renascer. E tudo isto de graça!
Os Rolling Stones são famosos por causa daquela frase deles a respeito de nem sempre se poder ter o que se quer, mas às vezes conseguimos ter aquilo de que precisamos. Sublinho: às vezes, podemos ter o que queremos e o que precisamos ao mesmo tempo, com tudo grátis e às vezes até há beijinhos!

sábado, julho 04, 2009

Ninguém pode.

Curiosos, os caminhos humanos.
Bichos estranhos. Protegem-se de sismos, lutam contra cancros, preparam-se para furacões, cheiram tempestades, sobrevivem a acidentes, escapam, continuam, esperam.
Mas da culpa? Salve-se quem puder!

sábado, junho 27, 2009

Vais ver!...

É possível que viva em mim alguém que nunca vi? Não, mas eu vi. Será possível que viva em mim alguém que nunca conheci? Não, claro que não, se não conheci, não. Mas eu conheço, e vou conhecendo, porque vive em mim e eu conheço.
Sinto que é, que foi, e que é sempre.
A vela é o tempo que arde. O tempo é a vela que passa.
Às vezes apetece-me ir até ao cemitério dizer olá a um resto de corpo morto...dizer Sou a Ana e já tive oito anos, como tu também já tiveste...! Vou andando agora nos meus dezasseis e não fazes ideia das coisas que tenho para discutir contigo!
Mas faz. Porque está e as minhas coisas são um livro aberto para quem está. Se não estivesse, eu não sentia que sim.
"Um dia a minha mãe também vai para ao pé de ti e então tu vais ser-me muito útil e voltar a falar-lhe daquelas coisas só tuas...e eu vou chorar de felicidade quando perceber que voltaram a rir-se à gargalhada...a tal gargalhada de cabeça para trás... Vais ver!"

terça-feira, junho 23, 2009

Eu posso tudo.

Vai haver sempre isto. Isto não, mas outra coisa qualquer. E eu vou ser sempre um copo que cai e que parte. Sempre um copo, sempre eu, sempre um estardalhaço enorme - para mim, claro - que antes de chegar aqui caiu de 50 prateleiras muito muito muito altas. Porque o muito é sempre relativo, tal como Deus é minúsculo.
É por isso que a Mariana ganha sempre - sempre é sempre - e a Sara é e sempre será - sempre é sempre - a minha Tangerina. Porque eu sou um copo que cai e que parte, independentemente de tudo o resto, menos de tudo - que é o mesmo dizer que nada. E é assim que é independentemente, i. é, de modo independente. Porque eu sou um copo que cai e que parte e que se não caisse nem partisse não estaríamos todos aqui a fazer nada. E se não fosse independentemente nesta dependência total e absoluta que expliquei há uns momentos atrás, também não valia a pena estar para aqui a escrever.
Pum. Caiu. Haha.

segunda-feira, junho 15, 2009

Diz.

Diz que o escuro volta.
Que há um lugar para crescer e um tempo para ser racional. Que é bom ter medo e que a noite existe sempre, mesmo quando nós deixarmos de existir.
Diz que é, se nós quisermos. Diz que sim.

sábado, junho 13, 2009

eu sou um copo.

Poisou o copo sem o partir.
(Ainda tinha água, mas era o mesmo que não tivesse, porque de qualquer das formas não foi bebida.) Devagarinho, deu um beijo à mãe e, como se tivesse voltado ao estúdio de dança, dirigiu-se ao quarto, depois à cama, sem que o mínimo ruído tivesse oportunidade de se estrear.
Deitou-se. Sonhou um sonho acordado: que estava na praia, naquela mesma noite, e que afinal não existia dor no seu mundo. O seu mundinho ridículo onde podia não haver dor, se se sonhasse dolorosamente muito, mas sem se notar.
Levantou-se e pegou nas bandas de cera. Olhou pela janela sem que a janela desse por isso. Uma noite, a primeira, em que a depilação não doeu nem um bocadinho.

sexta-feira, junho 12, 2009

Apesar de cocó, eu amo-te.

Fica uma ode.
Uma ode aos amigos. À confiança. Àquela cumplicidade que nos embrenha uns nos outros. Àquele hábito tão nosso e tão bom de irmos conhecendo. Às coisas que acontecem: as boas e as más, que acabam sempre por fazer de nós quem vamos sendo.
Um hino a todas as pessoas que foram, nem que por um minúsculo momento, e mesmo que nunca o tenham sabido, o mundo para alguém.
Na prática, faço então uma ode às pessoas; ao ser humano em si, capaz de tanto. Capacitado para ir, ver, cantar, pensar, teorizar, rir, lutar, vencer, perder, acreditar, sobreviver...capacitado para ser plenamente e para amar aos bocadinhos.
E hoje, especialmente hoje, àqueles que perseguem os seus sonhos como podem, com quanto podem, e são dignos de esquilhões por isso.
Ao Miguel, ao Vasco, ao Hugo e ao Válter.

quarta-feira, junho 03, 2009

Para mim todos os dias são derrotas II

Porque senão eu ganhava.
Porque senão já não havia aqui nada para fazer, porque estava ganho.
Quero ir. Quero querer! Quero continuar a perder e a não ter para poder continuar a ir ganhando.
Quero, quero, quero, e quero nunca deixar de querer. Porque quando eu não quiser mais, já não há em mim sonhos, já não há em mim saltos, nem sóis, nem bichos, nem tangerinas, nem chocolates, nem foguetes, nem flores, nem precipícios, nem teoria alguma, nem qualquer réstia de vida.
Cada dia é uma chapada. Cada dia é a oportunidade de a curar. De a superar. E de confiar que, quando chegarem outras, havemos de chegar para elas todas.
Não há aqui nada que seja meu. Perdi tudo. E nada me dá mais força, nem mais poder, nem mais confiança. Não há aqui absolutamente nada que seja meu.

quinta-feira, maio 28, 2009

sóis ao longe

Sonho para descobrir a verdade.
Aprendi com o senhor Roda: à noite é que tudo começa verdadeiramente. Porque a realidade desaparece com a luz, e a verdade vem vestida de luar (e com queimaduras solares: a verdade não perdoa nem é perdoada...). A escuridão é que é iluminada! Ela é a luz de sóis ao longe...e deixa tudo ver num só espaço e a um só tempo!...
Com o sono, começo a pensar com o corpo, mas sem saber. Pensadas com o corpo, as coisas ficam mais claras, e isso dá-me poder. Ao meu consciente, ao meu inconsciente e ao meu subconsiente...mas sou sempre eu! Só aí me apercebo...tudo é um concurso de circunstâncias e oportunidades...como uma conjuntura pintada à mão...
E tornou-se necessário olhar as coisas só com olhos de peluche para não magoar o sono.
O que dá algum trabalho, mas faz-se bem.

domingo, maio 24, 2009

atchim.

Tenho medo.
E tu tens razão. Tens sempre razão.
Eu sou fraca. Teorizo, dou a volta, caio, levanto-me. Finjo que não aconteceu nada. E tu ganhaste sempre, mesmo quando eu não vi. Sou...pequena. Como é que ainda aí estás?...
A esperança cresce, débil, real, por entre a relva, no caminho, à vista, como um fungo impertinente. Cresce espontaneamente, quando e onde não deve, daquilo, do nada, do resto, do que não conta, do caos, do fundo, para vir assomar à minha derrota mais uns pontos negativos. E deslumbra-me. (Fraca!)

Às vezes preferia que já te tivesses ido embora, sempre me sentiria inocente. Assim sendo sinto-me só idiota. E deficiente. Mas como é que tu ainda aí estás?...

segunda-feira, maio 18, 2009

Viver é não conseguir.

Foi o pior. Hospital, dores, consaço, trabalhos, testes, dentista, sono, macacos no sótão, datas, prazos, desafinações, ai, estou, morta.
Foi horrível. E talvez por isso tenhamos chegado onde chegámos.
Ganhámos porque aquilo que ali fizemos era verdade.
Parabéns, bichinho, pela nossa vitória no V Festival Palotino.
Porque sem ti, nada disto teria feito sentido absolutamente nenhum. Porque és tu que estás, sempre, a dois lances e escadas de distância. E mesmo quando não há escadas, nem lances, também não há distância e estás sempre comigo. E mais não preciso de dizer, nunca precisei...
És eu. És o meu bichinho. E nós não somos nada de jeito.

sexta-feira, maio 15, 2009

Piri Fonseca Ferreira

A Piri morreu.
Morreu a 26 de Fevereiro de 2009, às 23 horas, 5 minutos e 20 segundos.
Morreu porque o pai e a mãe dela - que eram, como sempre tinham sido, os melhores pais do mundo - se destituíram mutuamente de pais. E sem pai nem mãe a Piri morreu.
Mas não foi bem por isso que ela morreu. E nenhum deles sabe disso. Eles não sabem que a culpa não é deles, e a Piri não sabe que eles não sabem que a culpa não é deles. A Piri sabe, sempre soube, que a culpa era dela. Se tivesse sido uma boa filha, seguido à risca a educação que a mãe e o pai lhe haviam dado, a mãe e o pai nunca se tinham sequer lembrado de andar à bulha. E hoje seriam aquela eterna família feliz.
A Piri morreu e a culpa foi dela.
Morreu a 26 de Fevereiro de 2009, às 23 horas, 5 minutos e 20 segundos, e ainda hoje isso lhe dói.

sábado, maio 09, 2009

Pensar incomoda como andar à chuva...

É a felicidade de uma criança na feira popular pela primeira vez. É uma festa, é um instinto, um arrepio! É uma alegria, um doce que não apetece engolir, um suspiro de satisfação. É um prazer, um deleite, um mimo para a alma. É do mais humano que pode haver, porque sensorial e quase quase quase! palpável. É viver!, é sentir, é respirar! É cuspir esquilhões de bocadinhos de salsicha no meio de uma gargalhada. É sentir tudo devagarinho e com as pontas dos dedos, mas só depois de muito rápido e de se ter melgulhado completamente. É chorar, porque é emocionar-se, mais ou menos racionalmente.
Sou eu. E, por isso, um bocadinho de ti. (Como é que tu não percebes??!)
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O António um dia escreveu
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.
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Fique-se com esta.

sábado, maio 02, 2009

RTX 78/24

É uma peça estranha. É o apelo de Rómulo de Carvalho aos planos de paz verdadeiros. Sendo que a verdade é o que enobrece por oposição ao erro que é a discordância entre o pensamento e o objecto do pensamento. É o sonho de Antonio Gedeão personificado no menino António e na menina Georgina à procura da sociedade regida pelo amor em que os homens falam todos a mesma língua.
Mais que uma crítica social, é a apresentação da solução e uma proposta de novo início.
O Grupo de Teatro dos Assassinos da Arte de Representar está na Malaposta na quarta-feira que vem e os bilhetes reservam-se pelo telefone e são grátis. E o palco é nosso.

O sol é teu.

Faltas aqui. Mas como é bom sentir a tua falta!
Só sinto a tua falta aqui porque estás no meio de mim e eu sei que estás. Se não estivesses, nunca poderia sentir a tua falta e ser feliz com isso.