terça-feira, julho 14, 2015

"É bom. É bom."

Vamos almoçar aqui. Disse ele com uma voz grave, decidida, como quem decreta. Como quem faz questão. Com aquela voz linda que ele tem.
Gostava de um dia ser tão acolhedora assim. Do alto dos meus 87 anos, receber catraios assim, de braços abertos. Confiar neles, oferecer-lhes o que tenho. O melhor que tenho.
Ele fica a olhar, sorriso aberto, quase pueril. As montanhas a perder de vista, o rio que canta debaixo da ponte, ou cada folhinha de uma hera que se abraça a uma árvore perto. Decifra-os, toca-lhes, examina-os. Conta histórias, faz sugestões.
Vejo-o num limbo entre a genialidade do homem que conheço de sempre e um estado semi-demencial, difícil, incerto e em decadência, também. Olho-o e, nalguns momentos, não consigo deixar de pensar que este homem não vou voltar a ver, porque mesmo que o veja, estará um bocadinho pior e depois outro bocadinho pior e... Mais e mais longe do senhor que conheci.
Olho-o e enche-me o coração que me receba sempre assim. Já comeste? Faz-me sempre ficar. Olho-o e vejo a irmã dele, catraia num corpo antigo, com o mesmo sonho no rosto ao olhar aquela mesma serra, há anos atrás. Olho-o e vejo a irmã dele, hoje sombra, hoje dependência, hoje só rasto de algo já esquecido. Mas também sorriso pueril, dependendo das marés.
Eu vou convosco. Se me quiserem, claro. “Mas tem a certeza? Não fica cansado?” Ele olha-me por cima dos óculos. “Olhe que assim fico preocupada…” Ele segue à minha frente.

Muito boa surpresa. Gostei muito que viesses aqui.

quarta-feira, maio 20, 2015

De pessoas para pessoas.

Hoje é o dia dele. O dia de testar um sistema de eye-tracking, depois de quase um ano sem conseguir controlar um computador. Nem falar sozinho. 
Dois médicos, uma neuropsicóloga, dois terapeutas ocupacionais, uma terapeuta da fala, os pais, o irmão, a senhora do eye-tracking, ele e eu, todos no mesmo gabinete, todos concentrados na capacidade dele para controlar a geringonça. Pedem-lhe que faça várias coisas: escreva palavras, seleccione ícones, feche janelas, abra programas...
No fim tem um rol de perguntas, claro. Mas naquele tempo todo ninguém se lembrou de lhe perguntar se tinha dúvidas.
Vou respondendo e perguntando, uma a uma. A minha última resposta foi "I won't be here, because my internship will end before that, but they will find out the best communication device for you and I'm sure you'll have it. And use it. Like, perfectly. Any more doubts?"
Diz que sim com a cabeça. Seguro o quadro de comunicação que fiz há mais de um mês para que ele pudesse falar com...quem o quisesse ouvir. Vou escrevendo no papel, letra a letra, o que ele vai seleccionando.
"Don't go."

terça-feira, maio 12, 2015

O Algarve é uma cereja.

Fecho os olhos de repente, sem parar de andar.
O calor e a claridade forçam-me a entorpecer ao de leve enquanto saio do ambiente climatizado.

Quanto ganhamos ao fim de quatro anos de estudo? E de dezasseis?
Eu ganho uma multidão incontável.

Professores, amigos, colegas, orientadores. Obstáculos, desafios, reforços, notas. Aquisições, raciocínios, competências. Muitas horas de procrastinação.

Utentes incompreensíveis. Mas depois audíveis, visíveis. E interpretáveis, e competentes e válidos. E eu aqui, a esforçar-me por construir pontes. Tão débeis, às vezes! Por arranhar o muro até conseguir ver para lá dele. Que tola...

Eu, este nada, esta patanisca no meio dos bacalhaus a sério, a tentar ajudar alguém.

"Ana, tem a certeza de que é isto que quer fazer para o resto da vida? Ainda vai a tempo..."

Eu coro. Sim. É isto.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Vertigem e sonho ou a comunicação na afasia.

Chegou como uma trovoada. Ameaçava, nah, nada disso. Ameaçava outra vez, vá calma, não vai ser nada. E depois, um ribombar vertiginoso.
É isto. Tem de ser isto.
A comunicação liga-nos de tal forma a nós próprios e aos outros que sem ela nos parece que não somos nada. Que nada vale a pena.
Encontrar no outro alguém que se ligou a um pensamento que eu tive. Encontrar no outro uma tradução para o que eu não consigo dizer. E depois uma solução, ou uma explicação, ou um caminho a percorrer. Alguém que me deixa errar, que percebe que eu errei, que de facto tenta perceber o que eu quero dizer. Alguém para quem eu não estou atrás de um muro.
Trovejava, trovejava. Trovões, chuva, clarões. Começou a ser perigoso conduzir tão depressa. Só conseguia pensar que tenho de aprender o mais possível, saber o mais possível, procurar o mais possível. Não conseguia ouvir mais nenhum pensamento no meio daquela confusão. Saber o quê, saber porquê, saber como.
Alguém com quem eu já não estou atrás do muro.
É isto que eu quero fazer sempre.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Picos para fora, macio para dentro.

Ficas a olhar para um chuchu, os teus dedos tentam perceber a textura estranha.
Os teus dedos têm sensibilidade onde os meus não têm, nunca tinha pensado nisso. Róis as unhas até não dar mais, por isso passas a poder tocar nas coisas na vertical.
A verdade é que tinhas deixado claro o teu ponto e não havia muito a dizer naquele momento. Então tentavas perceber o chuchu.
Não tendo a olhar para ti como uma pessoa sensível. Mas isso acaba quando és e eu não sou, e eu acho que devia ser mais do que tu.
Uma capacidade que eu não cultivo. Por egoísmo? Orgulho? Que estupidez.
Fico muito pequena, mas só por dentro. Há um panarício em mim. Dói um bocado.